do pleno deserto

BERENICE ABBOTT | shadows produced by water waves (1958)

Migrar
Matrimônio de vogais: agora nada.
Fica a distância entre o corpo e a palavra.
Sequer a marca do sol ou da sarça.
Faróis azuis na memória, e mais nada.

Além do mar, o tempo não traga.

Gaivotas mergulham sem regressar ao quadro.
Nenhum nome persiste além do enigma: migrar sempre.
E esta noite é tudo o que temos.

Toda palavra é precária: flor, pauta de aves, rosa clara.
Nada persiste além da chaga.
Seus instantes de amor, suor e toque, a enseada.
A solidão não une. Tudo nos separa.

Além do mar.

Meu espírito recorda o exílio prolongado.
O golpe solar não muda esta noite: minha pele.
Todo nome é grave e transfigura.
Só posso oferecer esta noite, e mais nada.

A morte eclode em cada verso. Nudez necessária.
E só posso oferecer isto: o sonho primitivo
dos corpos sem busca. A mágoa.
Renuncio ao amor, pois sou precária.

Outros amantes espalham gemidos pela casa.
São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.
Uma vez foi dito: é para sempre. Ao meio-dia, uma vez e basta.
O espelho sempre nos mostra o que nos falta.

Mesmo esta paisagem sucumbe em seus vocábulos.
É belo naufragar entre os meus lábios.
Renuncio a ti, amor, pois sou precária.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.

Embebida
E o nítido arranjo
dos lábios, um a um,
e o despudor de vê-los
inocentes,
desnudos num
ir e vir medonho,
embebedada duma
realidade úmida
e carnuda, a coxa nua
roça pele contra pele, o quase
encontro e desencontro
de mim dentro daquela fresta
que ora sobra, ora se insinua
num abre e fecha; as pernas
embaraçadas sob a mesa,
a sombra trêmula
dos pés no chão, o torso
dele na camisa
entreaberta, a cabeleira
em caracol evoca
a noite estrelada
em Holanda brilhante
e turbulenta,
e o deleite ainda evola
feito de um gole de absinto.

Sumidouro
Ao redor do quarto
migra um cortejo de aves. Não vemos
porque estamos fechados.

Ao redor do quarto
um barco repousa em um mar sem ondas. Não vemos
porque estamos partindo.

Ao redor do quarto
baleias abertas e peixes mortos cobrem a angra. Não vemos
porque estamos sangrando.

Porque estamos sozinhos não vemos
suicidas engolfados nas brânquias tóxicas
dos cardumes. Não vemos

a morte solitária dos corais. Não vemos
a embarcação vazia permanecer
no silêncio das águas. Não vemos:

porque estamos no escuro.

Da arte de seduzir
em detalhes

perfumar o corpo jasmim
e sândalo nos ombros nus
a cabeleira em desalinho
se derramando a meia-taça
da peça íntima escolhida
previamente exibe o contorno
robusto um decote preciso
valoriza o colo e os seios
insinua o torneio das pernas
na meia-calça cor de noite
o vestido justo elegância
na curva dos cílios na sombra
dos olhos a prata dos brincos
de argolas num salto a sandália
brilhando a fivela dourada
destacando a graça singela
e espantosa dos tornozelos.

A morte canta. O corpo sonha.

Horas em chamas
Bebe a chama escura das horas,
o sangue do tempo.
Deita na sombra que estiola
no corpo sedento.

Cada segundo é uma porta aberta
Vejo seu dorso.
Quero tapar todas as frestas.
Mas você foge entre os dedos, nos seios,
no meio das pernas.

Enquanto a morte canta
Esse sopro de gelo na espinha é a morte que canta:
Não se retém o amor na concha das mãos.
Não se retém.
O amor, não se retém. Fica.
Enquanto puder.

O corpo sonha
Não vive a despedida com afinco.
Mas suga o primeiro pasmo até a última gota.

Há tanto mistério a ser capturado em pleno dia.
Há tanta noite umedecida no sonho do corpo.

 

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