do antes que se rompa o fio de prata

light passes through prism
BERENICE ABBOTT | light passes through prism

aceno
e o marulho fende a memória
na concha das mãos
estátuas de sal
no suor friíssimo:
escamas de peixe
medeias em fuga
cabelos vivos
no côncavo dos séculos
(a música)
de águas-medusa

guelras
ou ábaco líquido
(a mística do cálculo)
em ondas, em orlas
linhas tortas inúteis
onde o livro-transparência
arde
até os rins.

Medeia
estranha na terra de origem plantava entranhas e sangue nas folhas uma filha do fogo vermelha iracunda do cálculo rejeita a prole num plano que serve à cegueira o corpo da noite diante da sorte que o Sol sempre traga outro tempo o centauro da infância e a forma de amar a fonte impostura a lágrima afronta a clareza da força a vingança apronta o salto num jorro o deserto sucumbe o poder da ordem arranca a semente e enterra o que pulsa então vale o que inflama Jasão − de nada adianta o engenho no exílio do Sol não assombra ela grita: não quero sofrer e agora nada adianta assim deserta a cidade a ordem que o Sol sempre traga

O MAGO
No começo espreme a força
Do Universo em uma taça

Extremos se tornam claros
O enigma do baralho

& apetrechos da arte
Entre o artífice e a mesa

Bastão & moeda:
O poder e a vaidade

& outros disfarces
A fraude e a charlatanice

Entre as frestas da potência
E da intuição metódica

Talhada, sim, para o enigma
Da flor: outra orquídea

Ou esta vontade alquímica
Que faz de uma vida a vida

2.
Pra calcular o futuro
Considera-se o infinito

O IMPERADOR
substância
Ele não transcende
Esta forma provisória

Mas leva as maçãs de ouro
Ao jardim − herói solar

E ensina que a beleza
Não é um golpe de sorte

moeda
Reina sobre o concreto
O visgo de ouro da pedra

O que emana do petróleo
Poder que fascina tanto

E mesmo com mãos atadas
Metralha e metralha
Com efeito vibratório

Ou o peso da Palavra
Quebrada no meio de um crânio

Não é um golpe de sorte
Mas leva maçãs de ouro

Mambré
1 mistério se divide em 3:
2 anjos partem
1 permanece

1 abre a boca
e anuncia a morte:
é o que fica.

Outros partem.
São 2:
Fogo & Enxofre.

mistério sodomita

Ló é 1
E a mulher não pontua

2 filhas pontuam -2:
O pai, negativo, não olha para trás

Anticristo
às cerdas do embaraço
a chafurdar numa seqüência
de sustos − a matéria
do absurdo: o absurdo
na boca da raposa
que o resume − a natureza
talvez à espera
de um riso amarelo − a pele
sôfrega
em branco e preto − melodia
e morte (num contraste) − lirismo
forjado em que a Queda
ameaça
em câmera lenta − a forma
de um incômodo pungente
que nos cerca − método
a dissecar o medo
e a violência: o menino
de pés retorcidos
a cair pela janela: a mácula
habita o Éden − assim
em três cabeças
(sobretudo)
gravidade numa dança
que antecede
a suspensão:

o lençol branco
na máquina − a criança
despejada no branco da neve
com este urso de pelúcia − o pesadelo

da água um brilho delineia
uma senha − a mulher
abriga o mal:
mistério − nascimento
de estranha
devastação

assim − sem remédio
afundar na fonte
árvore
rude e seca
sêmen
vermelho da presa
feto
no ânus da fêmea

nada acolhe − tudo expele
um verde escuro
e sem remédio − o caos
reina

a terra uma cópula
(eterna)
de vítimas
queimadas pela ausência
do bom senso:
o mal
numa fé em poder
consumir pela força
o corpo e o céu onde o corpo
sucumbe

zombaria é história
de homens
a fé
num lugar sem dono
em que a fera dorme
onde tudo é farto
e uma graça redime
do ódio − aos iguais
irmana

o contrário
ao imperativo
é amor − enfraquece
e a culpa daninha
adorna o inferno: matar
pra comer: rapina
que consome
num segundo
outro rato

do ar emana
um sussurro tenebroso
de vozes
abafadas por razões
cheias de flama
pela precisão
de mutilar o que não cabe
em uma ordem: assim
explica-se
a brutalidade − zombaria
uma história
de quem se levanta
inflamado
diante do absurdo: ímpeto
de mutilar
o centro
qualquer substância
perfurar
o outro
com o peso
da angústia

ela grita: Nada
adianta
a sangrar sem os lábios
do sexo
arranca
todo o prazer
assim como o Éden
às bruxas enterradas
que proliferam mortes
sempre más
porque humanas

e o domínio da força
avança sobre ela: Nada
adianta − as razões
para o destino
impedem

qualquer redenção − enforcada
pelo homem: assim
sem remédio
afunda na fonte
árvore
rude e seca
sêmen
vermelho da presa
no fogo

ele manca
a fruta doce
mata
o apetite
e a fêmea sem face
multiplica-se:
melodia e morte
em preto e branco
o contraste
entre a fartura
e a mendicância − um lirismo
forjado
(sobretudo)
pela precisão de mutilar
o que não cabe
em uma ordem.

7.
Virei com as mãos a caixa de dádivas:
eram males também.

Tive a pressa de um herói, entornei manhãs, entornei
a Constelação de Órion
no centro do mapa.

Entornei o Arqueiro.
E ele feriu o calcanhar
do meu bicho do espanto.

Fincou na massa espessa do Acaso
a seta que se lança
à máxima estrela.

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