escrita noutras vozes (algumas)

DE: ANTES QUE SE ROMPA EL HILO DE PLATA
Livro de poemas
Edição Bilíngue | Ilustrado por Márcia Tiburi | Traduzido ao espanhol por Fernando Réyes
México, Cidade do México: Proyecto Literal, Selo Lemón Partido, 2013

Alfredo Fressia

Poesia da iminência. Para ser lida na espera. O Antes que toca como um raio da Morte, da Carta XIII. O fio pode ser quebrar. Não é qualquer fio. É de prata, de lua, é fio feminino. Ou fecundo, se fosse sêmen.

Salgado e clair de lune. O fio pode deixar Ariadne se perder no labirinto. Para ela se reencontrar era só mergulhar nessa ordem universal, que é magma, onde Maiara foi achar seus poemas iluminados como cartas do Tarô, trazidos do centro da terra, do secreto do bosque, dos líquidos do corpo da mulher.

Alfredo Fressia é poeta, cronista e crítico literário.


Cláudio Daniel

A construção minimalista, voltada ao retrato fragmentário de paisagens, objetos e sensações, mas evitando reverberações estilísticas derivadas de uma leitura ingênua da Language Poetry, está representada na poesia de Maiara Gouveia e Lucila de Jesus, poetas que elaboram artesanatos de alta densidade semântica.

(…)

Maiara é mais elíptica, lacônica, não recusa os desafios da sintaxe e nos apresenta insólitas construções verbais, como esta: “escamas de peixe / medeias em fuga / cabelos vivos / no côncavo dos séculos // (a música) / de águas-medusa / guelras / ou ábaco líquido / (a mística do cálculo) / em ondas, em orlas / linhas tortas inúteis // onde o livro-transparência / arde / até os rins”.

trecho de resenha sobre a Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea (org. Marcelo Ariel)

Cláudio Daniel é poeta, escritor.


Javier Norambuena

Prólogo: Habitar eso rasgandose

Cuando la escritura rasga algo lo hace sobre una superficie de sentidos, con el filo propio y con una gravedad única, aglutinante de la plusvalía de autor y de un libro. Este filo-libro de Maiara Gouveia trama su espesura en el miedo, pero en el antes del miedo, en la escritura de la palabra previa, la de una escritura anticipándose a la rasgadura operativa de este libro. La gravedad es la que merodea el margen, aquel llamado a retomar con el filo de plata. Con su anticipación, “já pagou a língua?, la lengua aquí será deudora, acarreará ese relato de saldo que pasa por detrás de los poemas, aquel sentido tejido en el silencio de lectura.

Varios son los nombres reinscritos por la voz poética, Medea, Zaratustra, Diógenes, Anticristo, detalles delicados en cada trama donde vociferan la reescritura. En cada retazo de su habla se anticipa el uso de la memoria rasgada a la que apela la matriz del libro. Retazos hallables como tentativa de hermenéutica o inscripción, o institución de ley para esa huella en donde los nombres nunca alcanzan con justicia lo que designan realmente, son en definitiva, una insignia cuyo vacío se encuentra a cada vez que se los invoca. Es la archi-marca de Derrida desmanchándose.

No sería difícil articular ese recorrido de lectura más detalladamente.

Esa voz femenina derivada de Medea, voz extraña en la tierra y extranjera de su propio exilio -¿edénico?- zigzaguea por varios órdenes, pues el arquetipo de lo femenino se desmonta permanentemente hasta ahogar a la musa, “Dentro del verde una sombra roja/

sin timón sin mástil/ la nave contra el sol/espera la sirena/en la boca del hombre

Hay un terreno baldío del cuerpo en donde se pierde la luz, pero no se obtiene la oscuridad pues es imposible apagar la luz corpórea, tiene iridiscencia escabullida. Ese saber lumínico está maquinado en el filo de plata, en su anticipada suspensión de la palabra poética.

Javier Norambuena é um poeta e psicanalista chileno.


Marcelo Ariel

Uma pulsão erótica que não descarta uma laicização do sagrado é uma das características da poética de Maiara. Alguns poemas me lembram exercícios da psicomagia de Jodorowski, onde a metáfora é um poder, não de sublimação, mas de intervenção na realidade, como a extensão de um furor que nada tem a ver com o furor abstrato da razão, mas com a transfiguração de estados perigosos do ser, de um Pathos semelhante ao dos rappers, sem utilizar a sintaxe do R.A.P., mas dentro de sua esfera de contemplação ativa do mundo.

Como nos expressionistas alemães Maiara alia a esta transfiguração a evocação de uma simbologia que é um símile de seu mundo interior ressignificado pelo  exterior, como um Uroboro em chamas. Aí está talvez, uma das funções míticas do poema: Falar do mundo como o lugar onde a metáfora e o símbolo são instrumentos de abertura para uma possível intervenção, cujas linhas de força apontam todas para o encontro com o Outro, não o Outro  de Rimbaud, mas com o Outro-Outro do Speculum Harmonium.

Marcelo Ariel é poeta e performer.


Márcia Tiburi

Antes que se rompa o fio de prata deixou-me com um espaço em torno do corpo, nele a curiosidade me faz dar voltas em torno de alguma coisa que, no entanto, não conheço ou nunca conheci. Talvez seja um resto de negativo que, me pertencendo, não é meu, ou que eu ainda não assumira. Ler sua poesia é esta estranheza alegre.

Vc é uma grande escritora. Uma grande poeta. Sua poesia é coisa incomum. Temos que protegê-la como uma criança perdida que um dia é achada. Um beijo, Márcia.

Márcia Tiburi é filósofa, artista plástica, professora universitária de filosofia, escritora e política.


Néle Azevedo

Maiara minha querida fui surpreendida pelo correio em casa: uma cópia do seu caderno com a letra de menina e os poemas de mulher que conhece a dor.

Ainda não tenho palavras, mas pensei em lhe presentear também com um fio de água.

Achei que o correio demoraria para lhe levar a notícia e a foto – atendi à urgência do agradecimento.

Bjs, Néle

Néle Azevedo é artista plástica.


Renata Huber

Maiara, querida, hoje, lendo seu livro, veio o texto, o poema, esse tecido que te envio com imenso amor-carinho, com desejo e todo o tempo, que você me abriu e fez sentir. Abraço apertado, Renata.

Antes que esse fio, de ser um, diga o mar, Maiara morde, chuta, diz a terra enfurnada entre as coxas aturdidas, a pele já viscosa para o outro, seu espanto, ela mesma o deserto do barro à estrela, o outro de um querer que lhe entra e faz um filho, um filho a céu aberto na pele de areia, e toda as carruagens, miragens do seu sexo, e toda a rejeição que ela afronta e diz talvez, não sou a falta imberbe que te bebe nas alturas, não sou a rocha cálida nem pretendo que me chorem, não sou nada estranhamente que não floresça imposturas, e às vezes, onde a cabra, a garganta de um retorno, e às vezes onde o ovo, revoada, ser de dentro, ela grita o anticristo, a zombaria disso tudo ser pérola pela ausência, pérola e fé deitada em devastada redenção, e uma graça imperativa de fêmea infernal, e uma outra que se arranha e se levanta inflamada, com a voz absurda, a loucura enterrada nos domínios da cabeça pedindo pra descer, escoar até o ventre excessivo e rebentar, sem remédio rebentar para o outro sem a face, o enforcado dos borrões de um lirismo atarantado, de um poder alucinado em abismos e quebrantos, pranto esquivo em fios de prata pedindo para ser, rogando o infundado por torres e estribilhos, pedindo e rogando e caindo sempre mais entre o poço e o blackout, entre o visgo e o pandemônio de haver a pele nos cabides, a máscara e o paletó com marcas de batom, enquanto ela, a devassa, escorre versos pela vulva, diz Jesus e a Madonna estrombótica insuportável, e o mito que lhe ronda, e a bunda nos caninos, e o outro lado pirilampo da recolha sem ruídos, do exangue apocalíptico de toda coisa ser somente, semente de dádivas e dúvidas heróinas, árvores da fortuna em rodas do seu mapa, enquanto ela, fecunda, constela os calcanhares, pede prumo ao barqueiro em leitos adiados, lençol de espanto e cães saturnos mordendo-lhe as raízes, em cada seta as raízes do universo, seu baralho, uma taça e os apetrechos deitando sangue nos enigmas, e a matemática dos afetos comovendo as loterias, e a sorte nos barrancos de Chihuahua e Cabral, de Américas e Estamiras imperando novos mundos, novos astros negativos do úmido, seu espaço, branco e rubro, vibratório, do alquebrado e sibilante.

Renata Huber é poeta, atriz e artista visual.


Roberta Ferraz

ai, minha querida, não há palavras nesta hora. foi espontâneo: o jogo, o gesto, a dança das mãos.

algo chamou jodorowski, que chamou de volta as tradições ocultistas dos ciganos.

o que posso lhe dar agora é isso, essa mão atuante sobre o texto, essa magia. que eu não pensei, apenas de repente me vi fazendo, muito naturalmente, muito exatamente, muito livre, intuída, dada. descobri que o primeiro toque se recolhe, é calado e calmo. e no correr das páginas sob o dedo a urgência de apalpar se dilata. e subitamente a mão gira e oferece todo o seu labirinto, seus minúsculos traços. esse segredo que só ofertamos no amor. as mãos começaram a dançar

e a agir
no texto e
na sombra dele

o ato é seu, é para ti, são tuas as imagens das mãos minhas, nossas. depois virá palavra, jorro incensante; por enquanto: a gota minuciosa das dobras da unha, do contato, e da posição precisa dos sinais.

o carinho cresce. sua rosa

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Roberta Ferraz é poeta, doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).


fios soltos (alguns)

Érica Zíngano
maiara que lindo
que lindo
que lindo

estou vendo tudo de perto
te acompanhando nisso

estamos aqui,
ez

Patrícia Basile de Castro Kondo

Maiara, não consigo dizer outra coisa além de: vc é demais de boa!

Silvana Guimarães
Nossa, Maiara. Este livro é pra mil talheres.
Lindos os poemas. Assustadores. Um beijo!

 

Para baixar o livro

https://maiaragouveia.com/2019/03/02/2-livros-selecao-de-ineditos/

DE: PLENO DESERTO
Livro de poemas
Edição artesanal | Tiragem limitada
Brasil, Santa Catarina: Edições Nephelibata, 2009

Ana Rüsche

escrito à época do lançamento, em 2009

Pleno Deserto (Edições Rumi/Nephelibata, 2009) | Livro de poemas de Maiara Gouveia, traz o corpo, o íntimo, o sonho e o místico. Também há a sedução e o que é desencontro – “Não vemos:/ pois estamos no escuro”, nas palavras de Marcelo Ariel, “uma pulsão erótica que não descarta uma laicização do sagrado é uma das características da poética de Maiara”.

Tive o prazer de acompanhar muitas das inúmeras etapas da formação de Pleno Deserto da Mai. Saber do texto finalista no prêmio Nascente-USP. Receber várias versões e as ler em locais inóspitos. Acompanhar a escolha da capa. As divagações sobre o lançamento, o local, os detalhes. As idéias sobre a distribuição.

Bem, o resultado é um presentão, que se vc não comparecer, será uma pena-que-não-vale-a-pena. Afinal, quem comparecer ao mencionado abaixo restaurante japonês ganhará um exemplar. Não é bem lindo, assim radiante?

Pretendo falar mais disso durante a semana. Pq é preciso. Um livro que desponta é algo raro de assistir. O que só passa com certos livros. Então… não se perca e anote a quinta-feira! E escolhi um poema.

A MORTE CANTA. O CORPO SONHA.

Horas em chamas
Bebe a chama escura das horas,
o sangue do tempo.
Deita na sombra que estiola
no corpo sedento.

Cada segundo é uma porta aberta
Vejo seu dorso.
Quero tapar todas as frestas.
Mas você foge entre os dedos, nos seios,
no meio das pernas.

Enquanto a morte canta
Esse sopro de gelo na espinha é a morte que canta:
Não se retém o amor na concha das mãos.
Não se retém.
O amor, não se retém. Fica.
Enquanto puder.

O corpo sonha
Não vive a despedida com afinco.
Mas suga o primeiro pasmo até a última gota.

Há tanto mistério a ser capturado em pleno dia.
Há tanta noite umedecida no sonho do corpo.

Ana Rüsche é poeta, prosadora e doutora em Estudos Literários e Linguísticos em língua inglesa.


Carlos Machado

em 2008

Nascida em 1983, a paulistana Maiara Gouveia tem poemas e artigos publicados sobre cinema e literatura em revistas, jornais e na internet. Em 2006, foi uma das finalistas do Prêmio Nascente, da USP, com livro de poemas ainda inédito O Silêncio Encantado. A autora retrabalhou os textos desse livro e posteriormente rebatizou-o para Pleno Deserto. Os poemas mostrados foram extraídos de Pleno Deserto.

Poeta, indisfarçável leitora e ensaísta, Maiara Gouveia tem aguda consciência do jogo literário. Em seus poemas algumas facetas se destacam. Uma delas, a mais fácil de perceber, é a veia erótico-provocativa, talvez herdada, mesmo longinquamente, de leituras baudelairianas. É fácil descobrir que Maiara visita Baudelaire. Não é por acaso que o título do blog dela, A Certeza de Fazer o Mal, vem de uma frase do  autor de As Flores do Mal.

Na verdade, no erotismo dos poemas de Maiara Gouveia encontram-se indagações que partem do corpo e vão bater às portas da morte. Enfim, o velho embate entre Eros e Tânatos.

Mas os poetas não têm respostas. Apenas perguntam e constatam, com  espanto, a sucessão de acontecimentos que passam além do poder de suas palavras. É o que diz, perplexo, o poema “No Sumidouro”:

“Ao redor do quarto / migra um cortejo de aves. Não vemos / pois estamos fechados. (…) Não vemos / a morte solitária dos corais. Não vemos / a embarcação vazia permanecer / no silêncio das águas.”

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

Carlos Machado é jornalista e poeta, editor do boletim Alguma Poesia.


Mário Dirienzo

Temos diante de nós um livro de poemas intitulado Pleno Deserto. “Tudo está cheio de deuses”, disse o pensador pré-socrático Tales de Mileto, o qual, acreditando que o elemento primordial de todas as coisas era a “água”, estava imbuído de paganismo, do encantamento da natureza. As religiões monoteístas, abraâmicas, por sua vez, geminaram no deserto. A melodia das páginas que se seguem é feita do contraponto entre uma natureza divina e os salmos de entes perdidos, errando por uma “terra seca, esgotada, sem água”.

Pleno Deserto é uma peregrinação sedenta e aquosa pelo vazio que é plenitude; pela plenitude que é vazio. “À espera de milagres”, “inermes”, eis, pois, a sina dos mortais, estampada em poemas como “Cuia dos Milagres” e “Inerme”. Milagres acontecem, fazem-nos sentir que somos deuses. Todavia, por acontecerem, são meros episódios. Logo deixamos de ser deuses; somos “adeuses” dados depois de uma viagem.

Nanã é a divindade africana das águas paradas, dos pântanos e da lama. É também a responsável pelo portal da entrada neste mundo, bem como por aquele mediante o qual se sai da vida terrena. Nanã aparece no primeiro poema do livro, dá o fluido e moldável fluxo de Pleno Deserto. A aridez do deserto é da ordem do “sonho na concha” – “úmido silêncio”. Mas o sonho sai do caramujo, e o sol “estende-se em estupendo lençol:/ enorme plantação de laranjas”, e o ser desperta com “a alma na boca”.

As artimanhas do “estro” – o termo significa tanto cio quanto imaginação poética – surgem mesmo nas manhãs frias de “Alba”, nas quais o amado partiu antes do término da noite. Sob as artimanhas do estro, como se vê em “Cimo” – um dos pontos altos do livro – não há perda, mas acúmulo de “doçura”, “susto”, “guerra”, “loucura”, pois o que é sumo, ainda que abismal, é cimo, porquanto há sempre outra face a ser dada, a ser vista e, mesmo na maior mágoa, há a ressurreição nos conventos ou nos lupanares, no recato e no desacato.

O caráter indiscernível desse “pleno deserto” de Maiara Gouveia implica “flores de sangue” e “mulheres líquidas que esvaem”: gozo que é agonia; agonia que é gozo. Um segundo a mais é o que pede o mortal, sequioso da imortalidade de alguém, do amor ou de qualquer forma de “sede sempiterna”, pois a única maneira de bastar-se é “transformar todo o desejo em saciedade”: “águas são deserto” e o conhecimento do inferno impõe-se aos nossos parâmetros paradisíacos. De modo que a aridez do deserto, para além da morte que a vida pode incorporar e cantar, manifesta-se em sua ruidosa mudez em todos os lugares, até nos recantos mais insuspeitos como uma “sala de poetas”. Eu disse “insuspeitos”, mas deveria dizer “os mais suspeitos”, pois ninguém é traído a não ser pelos seus. O canto até pode “inundar essa sala”, onde jazem os literatos com a concisão de suas “palavras magras”, com o seu estro anoréxico, que nunca rasga o verbo ou a fantasia. Mas esse canto jamais servirá para erguer torres de marfim, soando apenas para derrubar as torres de Babel ou as muralhas de Jericó.
A poesia é medida e desmesura, sem nenhum compromisso com a cortesia ou com o comedimento. Seu angelismo é luciférico: é o dos “anjos de rapina”, dos anjos-chacais. Diz o Bom Livro que a chuva cai sobre os justos e os injustos, assim, nada mais justo – ou injusto – que a raposa ver “o sagrado na presa consumida”. Mas a chuva é feita de lágrimas, das lágrimas do Alto, que banham as folhas vermelhas do sangue derramado.

Em Pleno Deserto, a poeta toca em pontos pungentes da vida, que é sempre visceral, brutal e poética, em que pese a pluma leviana dos poetas: a vida é morte, predação, belas frutas são tão apetitosas como o sangue fresco dos filhotes. Fome e sede são o mote que atravessa o pleno deserto poético de Maiara.

Detrás de um texto, há um número infindo de outros textos. Dentre os textos que formam a trama de Pleno Deserto está o salmo 63, citado pelo magnífico poema “Presságios”. O salmo 63 é aquele que diz: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro./ Minha alma tem sede de ti,/ minha carne te deseja com ardor,/ como terra seca, esgotada, sem água./ Sim, eu te contemplava no santuário,/ vendo teu poder e tua glória.” Em “Presságios”, uma mulher, sintomaticamente chamada “Dolores”, encarna a “dor ancestral”, na qual “não cabem visões de plenitude”. Dolores fecha as janelas e apaga a luz. Às vezes é melhor o sono reparador do que o sonho vão, neste nosso mundo “sublunar”. De acordo com a visão aristotélica do cosmos, o que está abaixo da Lua é imperfeito, ao passo que o “supralunar” seria perfeito. O mundo de “Presságios” é sublunar. Nele, a lua é mera mancha do sol, pendendo sobre o grande ermo que é esta existência, espelhando a nossa face de mortais, dissolvidos na eternidade e – no mar.
Busco agora o auxílio de um poeta experiente na arte não só de escrever, mas de ler poemas dos outros: Octavio Paz. Em seu famoso livro O Mono Gramático, o poeta mexicano afirma que a poesia não está escrita numa gramática paradisíaca. Diríamos, pois, que está escrita numa gramática da Queda. De fato, a natureza é inocente e decaída ao mesmo tempo. Para Paz, a linguagem é a “crítica do Paraíso”, pois no Paraíso as coisas tinham nomes próprios, ou seja, coisas e nomes eram o mesmo. O aparecimento da linguagem seria a própria Queda, o diabólico reino da arbitrariedade do signo.

Eis o que diz Paz: “O poeta não é o que nomeia as coisas, mas o que dissolve seus nomes, o que descobre que as coisas não têm nome e que os nomes com os quais as chamamos não são seus. A crítica do paraíso se chama linguagem: abolição dos nomes próprios; a crítica da linguagem se chama poesia: os nomes desgastam-se até a transparência, a evaporação. No primeiro caso, o mundo torna-se linguagem; no segundo, a linguagem converte-se em mundo. Graças ao poeta o mundo perde seus nomes. Então, por um instante, podemos vê-lo tal qual ele é – em azul adorável”.

Essa concepção da poesia e do papel do poeta pode talvez captar o sentido de poemas como “Primeira Visão” e “Oblação”, nos quais não há uma “palatável” fruição do sagrado, mas sim uma visão abismal do sagrado a partir da cisão fundamental entre o divino e o humano, pois os mortais “vivem na ira de Deus” e “não há piedade nos caminhos de Deus”. A Beleza, como nos advertiu Rilke, é o grau do terrível que podemos suportar. A visão do divino é aniquiladora, por isso, só podemos vê-lo por um instante e depois perecer, perdendo-nos no terrível, infinito azul adorável. Além de “Cimo”, Pleno Deserto tem um outro cimo: “Oblação”. Nesse poema, a condição do poeta aparece em toda a sua pungência, assim como a sede e o salmo, que são os fios condutores do livro, adquirem seu pleno sentido. Diz a poeta: “Meu salmo não serve para encontrar a paz./Procura apenas a vibração da beleza.” Acredito que todos aqueles que, algum dia, com seriedade, tentaram ser poetas podem adotar esses versos como divisa. Ser poeta não é ser alegre. Tampouco é ser triste. É, seguindo Cecília Meirelles, “cantar porque o instante existe”. “Sei que minha carne em breve será pasto/ do rude mensageiro”, afirma Maiara. Mas acrescenta: “Preparo meu corpo para o encontro/ com lágrimas de êxito.” Ao lado da sede que salmodia, as lágrimas, também na forma de chuva, são fenômenos que percorrem Pleno Deserto.

A visão de mundo antiutópica dos poemas impede que se abrace alguma utopia fácil, que reduza a felicidade humana a um esquema político, no fundo, administrativo. O caminho que aqui se traça é o da umidade íntima, mística e lacrimosa, na qual, todavia, permanece o Ser. O Ser é o que “sempre será”. Mas o Ser não é “verdade nenhuma contra a luz do sol”: nunca é uma evidência, algo que deixa “pegadas”, sempre é “na sombra das águas”.

O sol é árido, em sua inclemência pode trazer a desértica esterilidade. O sol costuma ser imagem da Razão, do ressequido, da dissecação, do ressentimento, frio em sua ardência calculista. A “metafísica da água”, dionisíaca, destitui Apolo – deus da simetria, identificado ao Sol – de sua árida razão, de sua estatuária eternidade: dos diques construídos para deter “a beleza erradia das águas antigas”. Mas as águas antigas não têm o condão de destruir o poder apolíneo. Flexíveis, as águas se amoldam ao “pulso” do verbo de um potente poeta.

A lógica da Queda elimina a subordinação de um ente a outro. Todos jazemos sob a Queda; todos, menos o Grande Outro, mas mesmo ele, ao fim e ao cabo, opta por cair e ser todos e Ninguém.

A perspectiva da poeta é a da “água lunar”, que puxa o “animal solar para dentro da lua” e o “helianto (girassol) para o centro da noite”. Não obstante a Queda, esta traz a “união dos caídos”, a “comunhão do exílio” e o sacrifício vivo, que pode ser muito bem o consumo da hóstia ou a consumação das núpcias, do “Himeneu” que vai fechando Pleno Deserto. “Himeneu” tem a mística erótica dos bíblicos Cantares de Salomão, evocação corroborada pela alusão a Hebrom. O vale do Hebrom é o local onde os primeiros patriarcas hebreus estão enterrados. “Himeneu” seria um “hierógamos”, um casamento sagrado que cicatrizaria as feridas. Mas as feridas nunca se fecham: “sempre ferida aberta o amor”. E “não se retém o amor na concha das mãos”.

O vale do Hebrom, atual palco de acirrados conflitos entre judeus e palestinos, não pode ser a última palavra, o último poema. O Poema não se ultima. “A morte canta. O corpo sonha”. O sonho – diria a alma –, que anima o corpo, significa “não viver a despedida com afinco”. Há a nênia – canto fúnebre – contraponteada pelo allegro do sonho do corpo. A nênia é o canto de Nanã, essa Deméter africana, regendo os submundos do Ser. Nanã nunca faria um par perfeito com um patriarca hebreu, contudo: “Há tanto mistério a ser capturado em pleno dia./ Há tanta morte emudecida no sonho do corpo.”

A trajetória do verso culmina com o reverso. Eis o ponto final, que são reticências; o conflituoso ponto pacífico. De novo, Paz: “O caminho da escritura poética resulta na abolição da escritura: no final, ele nos obriga a enfrentar uma realidade indizível”. “A poesia é número, proporção, medida: linguagem – só que uma linguagem voltada sobre si mesma e que se devora e se anula para que apareça o outro, o sem medida, o vazamento vertiginoso, o fundamento abismal da medida. O reverso da linguagem.”

FEV./08 – Mario Dirienzo

Mário Dirienzo é escritor e delegado de polícia.

 

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