XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte IX

escamandro

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Proposta, organizada e publicado em curtíssimo espaço de tempo, nas últimas semanas de Junho de 2013, no centro dos acontecimentos políticos que sacudiram vigorosamente o país, Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (editada apenas como livro eletrônico), feita por Fabiano Calixto e Pedro Tostes, ainda é, passados já mais de seis anos, a expressão artística mais imediata e ao mesmo tempo mais significativa daquele contexto, surgindo como uma sua consequência direta, uma espécie de instantâneo tomado no calor da hora, pleno de espontaneidade e desorganização, nascido sem…

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Módulo 2 | Quando a poesia irrompe: a instauração do possível na linguagem

Aula 5. Poesia: uma ruptura na linguagem

Preparação da aula de abertura do módulo 2 do curso Morfologia do Profano: a irrupção da poesia

trechinho inicial do texto | base para a redação da apostila

poema_objeto_brossa
Poema Objeto (1967) | Joan Brossa

Pois assim falam os inspirados; e os ouvintes, que se encontram manifestamente no mesmo estado, aceitam essa linguagem. Por isso ela se harmoniza também com a poesia: porque a poesia se origina da inspiração. (ARISTÓTELES)

A poesia, na tradição poética arcaica, é tida como a linguagem dos deuses. Platão nos diz que ela é o “sentido real das coisas”. Na inspiração, o poeta é uma passagem: elide a si mesmo e dá lugar à voz divina. A irrupção da poesia, nesse caso, é a irrupção de uma razão incontestável.

Ao ser tocado pela “realidade total”, de simples porta-voz, o poeta passa à posição sacerdotal, agora ele é o mediador entre as outras pessoas e a divindade, é quem transmite e ensina a verdade, a verdade mais pura (e a mais pura verdade). Pelas formas poéticas se ouviam os mitos: a palavra sagrada; isto é, a moralidade; isto é, os mandamentos de como viver.

pois o poeta é um bem sutil, alado e sagrado; ele não é capaz de compor antes de ser inspirado pela divindade, de estar fora de si, e antes que a razão não esteja nele; enquanto conserva esta faculdade, todo ser humano é incapaz de compor e profetizar. (PLATÃO)

À medida que a história avança, a poesia lentamente se descola dos sentidos fundadores e se torna ela mesma a tradução de uma passagem. Ou: à medida que a história avança, fica mais aguda e espalha raízes a consciência da ambivalência na voz poética.

A poesia é agora um coro onde se ouvem dissonâncias, onde a palavra é ao mesmo tempo a irrupção de um sentido intenso e de um silêncio de igual intensidade. Mas esse sentido não é mais o “sentido real das coisas”, ele é a própria coisa, a coisa abrindo-se e abrindo mais frestas, caminhos, passagens, mais possibilidades de sentido e de dizê-los. A poesia, portanto, é a instauração do possível na linguagem.

 

Maiara Gouveia. 9 de outubro de 2019.


 

Como escreve Maiara Gouveia

Entrevista concedida à página Como eu escrevo

Maiara-Gouveia

Uma delícia responder a entrevista do Como eu escrevo, maravilha de iniciativa do José Nunes De Cerqueira Neto.

A página é feita de conversas com escritores e pesquisadores: a generosidade das partilhas.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

“A manhã começa a bater no meu poema. / As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores líricas. / Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema. / Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas, / o rodopio das rosáceas do meu / poema batido pela revelação das coisas…” Herberto Helder

A revelação das coisas, no meu quarto, é anunciada pelo barulho estridente do alarme. “Só mais um pouquinho”, penso. Nesse instante, meu nome é legião. Depois, sigo pelo gesto de esticar os dedos e virar o corpo todo pra esquerda (sei que é pra esquerda porque meu ombro direito às vezes sai do lugar – luxação –, então evito qualquer manobra na direção dele). Esse é o movimento – quase diário – pra sair da cama.

O restante muda de acordo com a exigência do trabalho ou o projeto mais recente. Conforme a época, nem acordada estou de manhã, ou vou dormir justo quando amanhece.

“…Batem nas portas palavras, / sobem as escadas desta intimidade. / É como uma casa, é como os pés e as mãos / das pessoas invasoras e quentes (…) O povo traz coisas para sua casa / do meu poema. /(…) A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida / do mundo.” Idem (HH)

Citei Herberto Helder. Podia ter citado Chico Buarque: “escuto a correria da cidade / que alarde / será que é tão difícil amanhecer?”.

Mesmo em tempos de trabalho com rotina inflexível, hora marcada logo cedo, prefiro levantar antes e acordar direitinho, no meu ritmo matutino de quem entra na história pela primeira beirada.

Se fosse de noite ou de madrugada, o texto seria outro.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Preciso de um ponto de partida, e esse ponto de partida é variável: o envolvimento com um livro ou um tema ou uma experiência, o que for que me deixe com excesso afetivo de linguagem. Vou chamar assim: excesso afetivo de linguagem.

Com isso, a escrita puxa fios de si mesma, descobre o próprio método, exige os ajustes necessários, os improvisos e as lacunas necessárias.

Não existe ritual. Pelo menos, não existe ritual fixo.

Prefiro estar sozinha e no maior silêncio possível, mas desligo de tudo em volta se um texto captura minha atenção.

“Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. / Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. / Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie. / Vou chamar-lhe fio _____ linha, confiança, crédito, tecido.” Maria Gabriela LLansol

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Escrevo diariamente. Notas e textos breves, rabiscados em cadernos ou em blocos (de papel ou nas telas disponíveis). Textos maiores, como ensaios ou artigos, elaboro e organizo em períodos concentrados. Não tenho meta de escrita diária. Mas não fico sem escrever.

“Está em causa o que me move a escrever (o mundo) e o que me faz sentir (a / literatura). São quase sinônimos. E são-no quase porque, entre a literatura e o / mundo há ainda o ressalto de uma frase. Este ainda é precioso. (…) O / ressalto da frase é, propriamente falando, vital. Sem ele, os nossos corpos / não poderiam respirar. Teriam falta de desconhecido.” Maria Gabriela LLansol

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Nunca é difícil começar. Escrever (por aqui) é a própria substância de criar sentido – na carne e no signo.

Seria difícil não começar. Muito mais difícil acabar do que começar. Sempre achei.

A pesquisa é um tipo de leitura ativa, e a leitura ativa é a quase a gênese da escrita. São modalidades do mesmo ato. E vasos comunicantes.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Há nove anos escrevo o mesmo romance, o Salinas. Quando imagino que terminei a escrita, fico profundamente insatisfeita com algo e remexo em tudo. A própria encarnação da Penélope.

Talvez seja um ideal de resultado que se move conforme avanço. Talvez porque ainda não me considere pronta pra me tornar romancista. Às vezes tenho vontade de desfazer o livro em contos, histórias breves. Como escrevo principalmente poesia e ensaio, tenho o hábito arraigado da linguagem concentrada.

Também é como se o livro fosse virando outra coisa conforme o tempo passa. As questões que moviam a escrita dele. O jeito que pretendo escrevê-lo. Assim, uma década quase.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Não acredito em texto pronto, só existe texto esgotado, exaurido, e a partir do esgotamento não vai dizer nada a não ser se explicar ou se repetir. É o momento de parar. Na filigrana há sempre o que mexer, e sempre mexo, mesmo depois de o texto ter sido publicado.

Mostro trabalhos pra pessoas específicas antes de publicá-los. Nem tudo, mas boa parte.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Anos atrás, mandei cópias de manuscritos pra gente querida, com detalhes pensados pra cada uma. Como troca, elas mandariam rastros de leitura na forma que desejassem. Chamei essa ação artística de “O Antilançamento”. Isso foi em 2010.

Uma das propostas era pôr ênfase na ideia de que o livro não é só o produto que se lança às vendas; antes disso, é o cerne da correspondência entre quem escreve e quem lê, é um acúmulo de vestígios, secreções, ruídos.

Posso escrever em qualquer meio (mídia), em qualquer suporte – e escrevo bastante no celular e no computador –, mas tenho prazer especial em encher cadernos, folhas de papel, desenhar as letras, pôr a língua na tinta.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?

As ideias vêm da parte do corpo capaz de perceber o quase imperceptível, da parte do corpo que arrisca traçar zonas em formação, antecipá-las na linguagem, na transição do enigma aos significados móveis.

E toda paisagem é móvel. Com Maria Gabriela Llansol, acredito na escrita-paisagem:

“O falar e negociar o produzir e explorar constroem, com efeito, os acontecimentos do Poder. O escrever acompanha a densidade da Restante Vida, da Outra Forma de Corpo, que, aqui vos deixo qual é: a Paisagem. Escrever vislumbra, não presta para consignar. Escrever, como neste livro, leva fatalmente o Poder à perca da memória. E sabe-se lá o que é um corpo Cem Memórias de Paisagem.”

Criar é abrir e inaugurar a paisagem ao projetar essa mesma paisagem. Chamo essa tarefa de traçar Cartografias do Possível.

(Inclusive, estou lançando uma série de cursos com esse título, Cartografias do Possível. O curso inaugural é “Morfologia do Profano: a irrupção da poesia” e diz muito dos meus processos criativos e de reflexão, de obras que me instigam a escrever, de como penso os efeitos da literatura na arte –como estética e como relação com a política etc.).

Ler ativamente desde as coisas mínimas – habitualmente insignificantes – até as estruturas e os pontos nodais, cruciais. Isso é criativo. Pôr o dedo na ferida. Na ausência. No jogo.

A criatividade é misturada à minha identidade. Não preciso me preocupar em mantê-la.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

“De muito pôr o mundo na cabeça (entre livros, personagens, experiências variadas), de muito olhar para ele com atenção e desconfiança, chega-se à estrutura ficcional de tudo o que existe. Daí, sobram muitos cacos. É desse resto que nasce um escritor-artista”, falei isso em 2011, num trechinho do artigo “estalo no meio da orquestra”, pra oficina A Prática do Texto, da amiga e escritora talentosa Ana Rüsche.

Ainda acredito nessa fala. Ainda é parte fundamental do meu processo de escrita. Porém, se você lê o meu primeiro livro, o segundo e o mais recente, se você acompanha minha produção desde a adolescência até hoje, aos 35, há uma mudança significativa na composição, na elaboração dos mesmos temas.

Amadureci. A escrita amadureceu comigo. Passei por vários tipos de experiência. A escrita experimentou comigo.

“…Refere-se a um acontecimento, um momento, uma mudança vivida como significativa, solene: uma espécie de tomada de consciência ‘total’, precisamente aquela que pode determinar e consagrar uma viagem, uma peregrinação num novo continente (a selva oscura), uma iniciação (há um iniciador: Virgílio – teremos também o nosso).” Barthes comenta a atividade da escrita à luz da Divina Comédia: escrever é estar “a meio caminho desta vida”. (BARTHES, Roland. A preparação do romancevol. I. São Paulo: Martins Fontes, 2005.)

Diria tanto à Maiara mais jovem. Mas não sei se ela estaria pronta pra ouvir.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Tenho vontade de fazer um livro com notas desse tipo, minhas anotações esparsas: “Se a palavra flor abrisse inflorescências. /Se em cada face glabra, abracadabra: /outra forma desdobrada. /E se nada se quebrasse, /nem o baço, nem a margem de manobra. /O abraço ficaria pendurado/ na miragem, / onde a cabra entornaria o seixo, /a despencar no grito (espaço aberto) / e a garganta viraria tempo /– um tempo de retorno – /até que o verbo fosse inverso: /substância, inflorescência. (Poema que não entrou na edição final do Antes que se rompa o fio de prata.)

Isso incomodou o Artaud a ponto de no fim da vida ele só escrever glossolalias. Ele também falava da hiperlucidez do dizer na arte. E a necessidade do teatro era a necessidade de encarnar a palavra.

Mas a palavra pode ser encarnada quando incorporada. Quando se deixa notar o que ela faz no lugar invisível do que abre em nós, e em como somos transfigurados pela relação íntima, intensa, com a linguagem moldável, a que embaralha e desembaralha os signos em composições.

Isso é raiz no meu corpo.”

Quanto ao livro que eu gostaria de ler e ainda não existe, sempre que pensar num assim vou querer escrevê-lo.

“…cada começo / é só continuação / e o livro dos eventos / está sempre aberto no meio.” Wisława Szymborska.

Devir-Curso

questões do sentido

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correção no texto: Agamben

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vamos falar também da diferença entre o vazio como abertura à possibilidade de invenção e o vazio que elide o salto à potência (interesse de quem nos oferta caricaturas de sentido).

Em breve!

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segueocurso_maiaragouveiaprogramadeaulas

Ouça isto, Penélope

Odysseus and Penelope. Francesco Primaticcio (1563).

1.

Do sal à lavareda ondina, artimanhas são desfeitas no marítimo.

Ouça isto, Penélope, na minha voz mezzo-soprano: a linha

Entre os dois peixes e o Aguadeiro

No mapa

Na ponta dos meus dedos, é o mapa

Do céu. Onde mundos deságuam em

Histórias milenares desde as minhas

Impressões digitais.

 

Ouça o chiado na espuma: tempo mínimo

De uma vida. Semínima

Ou fôlego

Interrompido noutra fala. O corte e o recorte

Da sua figura arredia e

Reconfigurada

A cada luz.

 

Ou a luz ou o rasgo de ave no ponto

Mais alto da onda:

Ferida de açúcar na testa do monstro aí dentro

De um pesadelo-sopro onde o mar termina

Onde só existe um monstro: o abismo

Da sua boca no confronto

Com o risco

De a cicatriz sumir

 

Porque nada perdura a ponto

De jamais desmanchar

A rocha mais dura agora é leito

De peixe ou alento

No canto aguadeiro do mar.

 

2.

Afundar cidades íntimas.

Porque o íntimo é inabitável.

Refundar o íntimo. Partir

Da arquitetura selvagem até o tempo

Submerso dos quadros.

E saquear os próprios barcos.

Retornar.

O movediço como norte.

O retorno contínuo

A um continente móvel.

Fundar partilhas em fissuras

No imprevisto das caixas e das fendas.

Dizer às vozes seculares que povoam

Cada ofício:

Estou presente.

Sei talhar e retalhar enigma e sentido.

Dou às sombras meu óbolo: este

Contorno.

 

E sinto muito o tempo todo.


primeira versão: 17/06/19. Maiara Gouveia.

O Lago dos Cisnes | texto de 2011

Sonhei com a parte do prólogo, quando acontece o feitiço

 Já houve o encantamento. Ab initio, o espetáculo de Tchaikovsky se desdobra na história de outra donzela aspirante ao extraordinário. No jogo especular proposto por Aronofsky, a narrativa também é duplo, estrutura deformada de O Lago dos Cisnes.

Somos lançados dentro do processo alucinado de incorporação artística encenada por Nina e da imagem deformada no espelho: a protagonista não pretende se libertar da forma de cisne; ao contrário, entrega-se, cada vez mais fundo, ao sortilégio.

Assumir a possessão (em outras palavras, ser possuidor da possessão) elimina a necessidade de um príncipe e seu amor exclusivo. Nina é a LEDA capaz de tomar pra si o segredo daquele que a violenta – nesse caso, nenhum Zeus em metamorfose, mas o desejo de atingir excelência em sua arte.

“Eu só quero ser perfeita” é o fio que nos puxa ao interior do labirinto.

E lá, na espiral de espelhos, o movimento do corpo, o ritmo da música, as cores alternadas se misturam à aquisição de todas as nuanças possíveis da alteridade radical ansiada – e ansiada até rebentar todos os limites.

Se Lily tem as asas de cisne negro tatuadas nas costas, se Beth vivenciou as faces obscuras do “duplo monstruoso”, Nina deixará a pele ser perfurada com a plumagem noturna e deixará as pernas se arquearem até perder a arquitetura frágil que as sustenta. Nina, Lily e Beth – três cifras de duas sílabas: o duplo que antecede a indistinção.

Não existe ninguém nessa história além de Nina. Seu corpo é o lugar de onde assistimos ao balé.

A faceta do cisne branco, identificada à mulher de 28 anos infantil, sob o domínio da ambiguíssima proteção materna, é tão teatral quanto será a do cisne negro. É a primeira máscara acoplada ao rosto, finamente transmutada em aderência.

A tese de que o bem e a pureza são maquinais, controlados e desumanos, explicitamente trabalhada num filme como O Olho do Diabo, do Bergman, ressurge nas dobras de inúmeras falas do diretor e professor de dança. “Deixe-se levar”, ele repete.

Quando o artista se entrega à pura experiência de ser, acontece o inesperado, o imprevisto, onde, segundo Eurípedes, “um deus encontra passagem”. #primeiro_recorte 

Cena Final

Trailer

A identificação do duplo monstruoso permite vislumbrar em que clima de alucinação e terror ocorre a experiência religiosa primordial. Quando a histeria violenta encontra-se no auge, o duplo monstruoso aparece em todos os lugares ao mesmo tempo. A violência decisiva vai se dar simultaneamente contra a aparição sumamente maléfica e sob sua égide. Uma calma profunda segue-se à violência furiosa; as alucinações dissipam-se, o repouso é imediato. Isto torna mais misteriosa ainda toda a experiência. Em um breve instante, todos os extremos se tocaram, todas as diferenças se fundiram. Uma violência e uma paz igualmente sobre-humanas pareceram coincidir. Continuar lendo “O Lago dos Cisnes | texto de 2011”