POÉTICAS DO OLHAR: ALBERTO CAEIRO E ÁLVARO DE CAMPOS

imagem: “Perseguindo nuvens”, arte de Gemmy Woud-Binnendijk

1. Alberto Caeiro

 “Eu nunca guardei rebanhos / Mas é como se os guardasse”. Assim Caeiro se apresenta no início do conjunto de poemas “O Guardador de Rebanhos”. Conforme Glagliardi (2006): “Alberto Caeiro é alegoricamente pastor, uma vez que sua proposição inicial é essencialmente metafórica: ‘as minhas ideias são o meu rebanho’”. Através desse artifício da linguagem, o personagem-mestre pastoreia seu ideário: a objetividade plena de um olhar imerso na paisagem natural, tomado pela irrupção, sempre renovada, da real natureza das coisas.

“O meu olhar é nítido como um girassol.  / Tenho o costume de andar pelas estradas / Olhando para a direita e para a esquerda, / E de vez em quando olhando para trás…  / E o que vejo a cada momento / É aquilo que nunca antes eu tinha visto, / E eu sei dar por isso muito bem / Sei ter o pasmo essencial / Que tem uma criança se, ao nascer, / Reparasse que nascera deveras…/ Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do mundo…”. (Caeiro: 2011)

Caeiro teria escrito “O Guardador de Rebanhos” e “O Pastor Amoroso”, duas das três composições de sua obra, longe de Lisboa, sua terra original. O fragmento fictício-biográfico é parte da construção dessa voz que se distancia da modernidade pela intenção de incorporar uma simplicidade ancestral: a aldeia da tia-avó. O cenário, portanto, figura o arcabouço de sensações a um visitante-autor que só está ali idealmente. Há, nesse ideal, o afastamento de uma origem de fato e a fundação de outra: um deslocamento ontológico.

A poética do olhar, em Caeiro, é a utopia de um despojamento radical, a de um deus menino que abdicasse de sua condição de transcendência (cristã) para indicar nas formas naturais a visão da realidade absoluta, o real imediato (quer dizer, não mediado), cujo sentido é estar no eterno presente, sagrado em cada uma de suas aparências.

“O Menino Jesus adormece nos meus braços / E eu levo-o ao colo para casa. / Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. / Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. (…) E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,/ E que o meu mínimo olhar / Me enche de sensação, / E o mais pequeno som, seja do que for,/ Parece falar comigo. (…) A mim ensinou-me tudo. / Ensinou-me a olhar para as cousas.”

A infância que serve de modelo a essa poética é a potência divina que se move em cada sensação como se renascesse em cada olhar:

“Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos, / Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores, / Isso será uma alegria e uma novidade para mim.” (Caeiro: 2006),

como se nesse percurso fosse cada vez mais radicalmente se desnudando das camadas de obstrução entre quem vê e o que é visto, despindo-se da filosofia, da teologia etc., para atingir a pura imanência.

“Aparentemente destituído de ânsia especulativa, ele escapa às aporias da metafísica, e potencializa, como pedra de toque dessa poesia, uma filosofia da visão; uma visão sem artifício ou sede interpretativa, que elege como referência o modelo infantil, sem ignorar, no entanto, o universo cultural que lhe segue. Dessa forma, a hipótese de um suposto momento original e absoluto, porque uno, transforma-se num caminho crítico em ‘O guardador de rebanhos’, cujo vetor principal aponta da complexidade para a simplicidade.” (Gagliardi: 2006)

            “Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.”, diz Caeiro (2006) em “O Pastor Amoroso”. Essa ilustração infantil, de uma linguagem “despida de afetos e apelos emotivos, sem metro, rima, jogos sonoros ou marcação rítmica” que “se vale, em síntese, daquilo que se apresenta como natural e espontâneo” (Gagliardi: 2006) não se desfaz, porém, da constatação de um impedimento: “Porque me falta a simplicidade divina / De ser todo só o meu exterior”, conclui Caeiro (2011).

O imaginário poético sempre substitui a presença das coisas a que alude, porque a natureza da imagem é sinalizar não um estado de presença inesgotável, mas uma distância e uma ausência. Onde há olhar, a nudez é inatingível, e é inatingível a dissolução da barreira entre sujeito vidente e objeto visível. Entre ambos há o visto, que se torna imaginado.

2. Álvaro de Campos

Álvaro de Campos, o engenheiro naval, encena uma insatisfação voraz, que diz desejar “sentir tudo de todas as maneiras”, abranger tempos e espaços distintos, distintas formas de ser, a partir de um olhar radicalmente deslocado de uma suposta imediatez do real. A poética de Campos enfatiza a tensão entre o edifício das sensações e a visão de uma paisagem artificial, “untada mistura metálica e marítima”, em que o maquinal e o sensível alternam-se na expressão de uma ânsia e um saudosismo em contraponto.

 “(…) E os navios vistos de perto, mesmo que se não vá / [embarcar neles, / Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas, / Vistos dentro, através das câmaras, das salas, das / [despensas, / Olhando de perto os mastros, afilando-se lá pro alto, / Roçando pelas cordas, descendo as escadas incómodas, / Cheirando a untada mistura metálica e marítima de / [tudo aquilo — / Os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma / coisa,/ Dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira.” (Campos: 2013)

Novamente, um fragmento fictício-biográfico ilustra o caráter desta voz poética: diferente dos outros heterônimos, Campos não escreve a tinta, mas na máquina de escrever. Nascido em Tavira, uma pequena cidade na costa algarvia de Portugal, vai estudar na Escócia e passa férias no Oriente, mas depois retorna a Portugal, mora em Lisboa. Tem o olhar de quem acrescentou camadas de complexidade cultural e de civilidade à sua origem, de quem exibe as entranhas do mecanismo que produz a vertigem das sensações. Conhecido pela grandiloquência e o ímpeto de uma palavra que sempre extrapola os próprios vislumbres, no entanto revela – em seus artefatos poéticos – a forja que são os procedimentos de pensar.

Fernando Pessoa, numa apresentação dos poetas sensacionistas ao público inglês, escreve a respeito do que considera a obra-prima de Campos, o poema “Ode Marítima”: “…ocupa nada menos do que 22 páginas de Orpheu, é uma autêntica maravilha de organização. Nenhum regimento alemão jamais possuiu a disciplina interior subjacente a essa composição, a qual, pelo seu aspecto tipográfico, quase se pode considerar um espécime de desleixo futurista”.

A dissonância na aparente adesão ao canto moderno em Campos, que exibe sempre um contracanto nostálgico, aponta o que Leyla Perrone-Moisés (1990) chama de “o futurismo saudosista de Fernando Pessoa”.

3. Conclusão: duas poéticas do olhar, o mesmo espinho

“Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente”, diz Álvaro de Campos no poema Vilegiatura. O sensacionismo de Campos é forjado pelo engenho. Caeiro não alcança a plenitude da objetividade (das sensações convertidas em visão) como Campos não experimenta a ubiquidade do olhar, a convulsão do excesso de sensações que duplica a vertigem de movimento e ruído da paisagem industrial.

Os dois projetos exibem a própria fratura. Estilhaçam o pensar-sentir em fragmentos da mesma ficção. Coincidem na tentativa de refazer o olhar numa espécie de fusão com algo diferente da civilização: em Caeiro, o mais simples e o mais natural; em Campos a própria construção “veleiros e barcos de madeira”, na “antiga vida dos mares” que liberta “do peso do Atual”.

Se, como declara o “mestre do olhar”, Alberto Caeiro, “a sensação é a única realidade aceita”, o que ambos produzem é o avesso disso, a exposição do mito subjacente a todo olhar, numa literatura altamente intelectual, altamente crítica, enquanto engendra na palavra poética o sentimento do mundo.

Maiara Gouveia. Junho de 2021.

BIBLIOGRAFIA

BRÉCHON, R. O Eng. Álvaro de Campos, poeta sensacionista (1914-1916).

CAEIRO, Alberto. Poemas completos de Alberto Caeiro. São Paulo: Hedra, 2011.

________________ O Pastor Amoroso. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/vo000006.pdf Acesso em 06 jul. 2021.

CAMPOS, Álvaro de. “Ode Marítima”. Em: Poesia de Álvaro de Campos. Lisboa: Assírio e Alvim, 2013.

GAGLIARDI, Caio. Os três Caeiros. 2006.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. O Futurismo Saudosista de Fernando Pessoa.Em: Actas do IV Congresso Internacional de Estudos Pessoanos (Secção Brasileira). Porto: Fundação Eng. António de Almeida, II vol., p.17-28, 1990.

LOPES, Teresa Rita. Álvaro de Campos (verbete).

O que pode o corpo de uma língua?

A NOÇÃO DE LÍNGUA TOTAL. Narrativas fundadoras se enraízam num sentido que irrompe da linguagem como revelação da verdade imediata. Isso quer dizer, a verdade não mediada, inteiramente entregue, não corrompida e incorruptível: sagrada.

Essa é a noção de língua total: ela não traduz parcialmente o real ou comunica algo de uma realidade inacessível à palavra. Pra si mesma, a língua total é a própria realidade que emerge onde antes havia o informe.

 “Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das águas. Deus disse: Haja luz, e houve luz.” Gênesis 1: 2-3.

Nessa percepção ancestral, a língua nativa é com o poder de revelar o sentido e a história no que antes era um mistério terrível, o abismo anterior aos nomes. Daí a ideia de que o texto do Alcorão é mais fidedigno em árabe; o da Cabala, em hebraico etc.

Para Lorenzo Valla, filólogo do séc. 15, o latim era “a saúde do orbe terreno… [que] forneceu o caminho para toda a sabedoria.

A QUESTÃO DAS LINGUAGENS TOTALITÁRIAS. Os povos pressentiam que o cerne de cada língua é intraduzível e dá acesso a um universo específico de paisagens narrativas, formas singulares de relevo ao trânsito da sensibilidade de da percepção.

Por outro lado, a inconsciência do caráter mediador da língua é um dos traços da adesão às linguagens totalitárias, que ─ em contraste com sua aspiração à verdade absoluta ─ fazem da mentira uma de suas armas de destruição em massa.

FILOLOGIA. A filologia investiga fontes escritas para determinar, por exemplo, a história de uma língua ou de uma família de línguas. Ela nos dá (entre outras coisas) o sentido exato de um texto ou de uma palavra em sua origem e a dimensão de como as estruturas narrativas possíveis em cada língua têm impacto na forma de perceber e contar o mundo.

POR FALAR NISSO… Deve sair em breve um papo solto que tive com as pessoas lindas Ana Rüsche, Vanessa Guedes e Thiago Ambrósio Lages, para o podcast Incêndio na Escrivaninha. Tema: língua nativa. Alguns fios iniciais e outras aberturas nesse assunto das limitações e potências que compõem a singularidade de cada língua (com suas variações internas e dinâmicas de metamorfose contínua).

***

Por fim, numa paráfrase de Espinosa, registro uma pergunta fundamental: O QUE PODE O CORPO DE UM LÍNGUA?

Na imagem, um poema visual de Joan Brossa, poeta catalão do século 20. A máquina da escritura.

Sexta da Paixão

Depois de seguidas humilhações, que incluíam testes de confirmação de virgindade, a Igreja condenou Joana de Arc. A adolescente de 19 anos de idade foi queimada numa fogueira em praça pública.

Enquanto era consumida pelo fogo e pelos gritos de “bruxa”, “herege”, “blasfema”, ela repetia “Jesus, Jesus, Jesus”.

FOTO: Cena de O Martírio de Joana D’Arc, filme de Carl T. Dreyer. Joana foi interpretada por Maria Falconetti, atriz que morou no Brasil fugindo do nazismo.

ANTES QUE SE ROMPA O FIO DE PRATA, título do meu segundo livro, é de um verso do livro de Eclesiastes:

“Antes que se rompa o fio de prata e se despedace o copo de ouro e se quebre o cântaro junto à fonte e se desfaça a roda junto ao poço e o pó volte à terra e o espírito retorne à sua origem…”.

Gosto de repetir minha tradução etimológica da palavra espírito: aquilo que é invisível e vital como o sopro (a respiração). E somos nós a realização do instrumento de sopro que dá o tom à trilha sonora da presença.

Isto: a presença de espírito. É onde se formam os territórios do possível e os da utopia. Quando o sopro e o som das narrativas riscam uma cartografia no que antes era informe. Eis a gênese do mapa inaugural das representações: espelho do país sem nome.

E por isso é preciso reler as frestas e as margens nos textos modelares e reescrever os mundos possíveis. Tomar no próprio corpo as histórias, verter de outra forma (não violenta) “a Palavra / quebrada no meio de um crânio”. Refazê-la no canto criador.

Por isso reencontro Agar em pleno deserto e as mulheres dilaceradas pela saliva de Brômio, que eram chamadas de bruxas e não cabiam nas manhãs.

Por isso falo das filhas sem nome dadas como oferta ao estupro dos anjos, ou das mutiladas de Moçambique, das mulheres violentadas em Chihuahua ou das Estamiras, e não só delas: de todas as vozes incendiadas pelas linguagens totalitárias, que constroem porões e altares onde a alteridade deve ser banida, torturada, extinta.

Que possamos reler os textos entranhados na formação ocidental à luz da imagem do divino que se humaniza, em combate com tudo aquilo que nos escraviza, partidário da libertação dos povos, da fraternidade, da justiça social.

Divino que faz tombar a mesa da transcendência transformada em mercadoria, que vira essa mesa com as próprias mãos e toma partido dos excluídos, luta contra hipocrisia (especialmente a religiosa), contrário a qualquer linguagem que, em vez de servir à inteligência e à sensibilidade, serve à mentira, à indiferença, ao egoísmo (essa letra morta e assassina).

Divino que sai da posição autoritária e entra na história. E chora e sangra e ama e reparte: pessoa-nome refeita no alimento multiplicado e sempre transbordante nas redes da solidariedade.

O divino na humanidade. Quer dizer: o divino em nós. Eis a paixão. Eis o fogo que extermina o mal. Eis o nome.

 “O Demônio ofereceu por uma alma o mundo, Deus deu por uma alma a Si mesmo; se achardes quem vos dê mais por ela, dai-a” Padre Antônio Vieira

pausa & mudanças


A foto mostra minha avó grávida de um dos meus tios & meu avô, que não conheci.

À frente deles, minha mãe e minha tia pequenas. No canto esquerdo, duas crianças da vizinhança.

Porém esta foto é só um pretexto pra comunicar que tenho mudado tanto desde o fim do ano passado que a partir daqui é outra realidade.

Sabe aquelas pessoas que, 《de repente》, mudam completamente de estilo de vida? Esse processo continua a acontecer dentro de mim.

Em setembro do ano passado, perdi um amor, que morreu de repente (num AVC hemorrágico) enquanto falava comigo ao telefone.

Depois disso, 2 meses depois, houve outro evento que mexeu comigo.

Então, este ano, a pandemia.

No meio dela, de novo repentinamente, tive que ser internada e passei por uma cirurgia de retirada de um ovário.

Já aconteceram muitos pontos de virada na minha vida. Porém, desta vez, foi tanta coisa seguida e com tamanha intensidade…

Não sou a mesma. E continuo me tornando outra.

Curtindo esse processo.

Por isso, uma pausa nos projetos pessoais, pra ver se no fim de tudo ainda cabem nessa outra vida que tem sido gestada.

São Paulo, 15 de novembro de 2020.

Salinas (excerto)

4. EXCLUSÃO

            A galé dos banidos avança à cidade do despejo. O passeio penetra a bruta névoa. (…). Os assobios do vento, uns uivos de demônio, somem no destino, um lugar baixo.

[…]

                     ─ Antes amnésia ─ uma voz gravíssima suspende o rito insone.

            ─ Antes demência. Porque na triagem dos corpos, os loucos e desmemoriados também são lançados no poço, e somem do abandono assim, na ignorância do crime praticado.

            ─ Cuspir na tua cara, chutar a porcelana da tua espinha, e seríamos só infelizes quebrantados, urinados nas calças, no meio do frio. Somos gente, e essa falha não se faz poeira úmida.

            ─ Antes a memória no encalço do erro, ensaiado e estresido desde cedo, até ser dito natural. Durante o pânico, até os insetos matam em bando. Sem suspeitar da culpa. Sem cogitar a pena.

            ─ Só a memória desmancha a nódoa inscrita nas coisas pela repetição da cegueira.

            ─ Pela força dessas lembranças, eu talvez vivesse mais um século. É tanto a fazer.

            ─ Eu só quero dormir.

            ─ E há casas no exílio?

            ─ Às vezes.

            ─ Talvez.

            5. NUS

            Se a pele contrai o frio como quem contrai um delírio de febre, o frio, por sua vez, contrai os séculos como se cada século fosse uma doença, um pensamento mórbido, uma dívida que é impossível pagar. 

            Aquela gente falida, com chagas em alguma parte do ofício de existir, tudo multidão espoliada.

            Os primeiros expulsos remoem as cenas. O arrependimento coletivo sob a peste.

            E a muralha do continente sobe até o ponto onde se oculta o limite. O ponto máximo. Babélico.

          Afundo os calcanhares na brancura. Não tenho mais corte. Só incômodo. Memória de uma dor.

            Penso no barco talvez impossível. E a distração se estende até o pássaro, com o bico no vazio, à espera da história com migalhas.

            B. ainda está aqui. Anda em si como num estranho à procura de toalete. Como alguém dopado pela fumaça de um incêndio no porão, que de repente se visse em casa alheia. O garimpeiro – não esquece – recolhe a beleza debaixo de muita lama e esforço. Pra o luxo de outros. Pra o próprio sustento.

            Morde a maçã. A carne da fruta é cruelmente alegre. Morde como se não comesse há séculos

            : com fome.

            Pediria pão. Pediria água. Pediria mel e leite. Porém há um crime, e é preciso saber mais. Mas o que é preciso saber?

            Não devia explicar. Outros dizem que sim, devia explicar mais. Há sempre muitas dívidas a levar em conta.

            Talvez seja um tipo de arrogância. Pensar como quem nada em mar aberto. As espáduas se enganam que são asas, e então se assombram com o estrondo do fluxo, quando o fluxo se agrava. E o vento cava uma fenda miúda no rosto, e a boca se abre pra engolir o que puder deste espaço. Que existe sem nós.

            Antes, os pássaros da carnificina eram mansos como terra seca. Deixei a morte à vista. Delirei a respeito de coisas bem maiores do que a humanidade. Devia ter vergonha de não cobrir o rosto. De não esconder os lábios rachados pelo frio.

            Há mais de um crime. Porém agora é a criatura despelada o que ainda dissecamos. A falta de ar incha o rosto flébil, e B. exibe os coturnos cheios de neve, o contorno escuro da face, a mancha azul e roxa entre os dedos. Ainda assim parece com mais vida do que Tácito. Lentamente ressuscita nos registros, enquanto as roupas rubras, em volteios, enchem a sala de sol. Sangue, incêndio. Não sei mais. É criatura antiga, anárquica, desenho de esfinge no imaginário da lei.

            É preciso saber. Isso demora. E é preciso saber o que saber. E como saber. E quando.

            Mas não se sabe.

            Qualquer pista é um nome gasto.

            O corpo dobra de tamanho, dobra a dor na respiração, a dor nas costelas: bendita seja a esterilidade do teu ventre, o alívio sem dono que uma nudez esfrega na floresta inerte das coisas comunicáveis. E então toma nos dedos a tela onde se lê: “é isto”.

            E é só.

            Mas não aceita. Não aceita.

            A pressa, a pressa de um estranho que nada tem com isso (até onde sabe, até onde se sabe), essa pressa atrapalha a reconstituição do crime.

            Um perito precisa de mais de espaço pra devolver a um corpo sua condição de gente.

            Nesta pauta não há mais peritos. O crime é tão antigo que prescreveu. A vítima ainda convulsiona como um possuído enquanto o espírito de porco despenca, e há todo o tipo de coisa a querer do outro lado. O lado onde nenhum de nós pode chegar. Foi essa pressa que trincou o primeiro vidro.

            É preciso voltar, recolher as raspas de remédio vencido, rasuras. É preciso estar aqui, acordado como um louco, entregue e solitário, babando a si mesmo por todos os poros.

            Pulo de vez.

            O desamparo acossa. Digo enfim

sós

            : o que te leva a imaginar fundura humana suportável.

            Voltamos ao limite. Voltamos:

            Estamos nus. E sabemos.

Maiara Gouveia. Texto original: São Paulo, 2010.

Imagens. Stephanie Inagaki.

Salinas (excerto)

2. SUPORTE

            É proibido ferir-se. Não esqueça.

         O comércio de hologramas prosperou. Quem sairia à rua vestido na própria pele? 

            Confinado nas horas mais íntimas, o corpóreo se tornou, pra muitos, um fardo. Nem sempre suportável. Alguns, mesmo sem a condenação ao exílio, pediam a submissão ao “carcereiro químico”, o alívio temporário, mas efetivo, alcançado pela dormência das necessidades e os desejos do corpo recluso.  

            Houve a imposição de regras específicas a certos tipos de suporte. Por exemplo, só se permite menstruar a quem puder pagar o preço.

            Taxada pelo preço do ridículo ou do fantástico, a decisão de recusar o código antimenstrual, regulador dos ciclos do suporte fêmeo.

            Suporte.

           Foi assim com as refugiadas. Foi assim com as cerzideiras. Pagaram o preço.

           […]

3. CERZIDEIRAS

            Fico neste quarto até cansar de ver a sombra das grades no tule e na pele. Forma recortes na brancura, que se estende – interminável – até o vestido. Ali, nas bordas da caixa, parece um pano eviscerado.

            A janela tem grades pra impedir que os meninos se acidentem. Nenhum deles virá hoje. Nada das correrias e os gritinhos em falsete. Faço de conta por eles que sou eu. A cerzideira.

            Imagino o continente do tamanho de um dedal. Agora sou bem menor que a cabeça de uma agulha. E estou entre as caixas, os trapos, as coisas esquecidas. Com olhos que são furos num lençol.

            Gosto das cenas com lençóis: a quietude balança, toda limpa (e por um fio). Pode ser no leito de núpcias, a espera esticada e branca. Uma espera por levantes. Porque os lençóis são signos de anúncio. Logo se reconhece o tumulto das vozes em cada tira de algodão. O sono interrompido pelo gesto: expiração da força onírica.

           Os pequenos, por exemplo, transformam o tecido em lábaros de guerra: os panos são rapidamente arrebatados por pirataria e heroísmo.

           Os amantes, por sua vez, as tramas macias com outro ritmo: o brusco do imprevisto. Porque é insustentável a placidez da costura.

            Sinto-penso: estou aqui por vontade própria. Mas sei bem que estou prisioneira de incidentes que me ultrapassam. Fora daqui há tanta neve. Queima até a voz. Imagine isto: uma voz incendiada pelo frio. Pó, fendas, quinquilharias. Sou parte do que tem falhas. Cubro esse escândalo com tule branco.

            Imagine isto: alguém vai ao médico, e o médico censura a exibição despudorada de uma febre ou, pior, de uma doença crônica. Aqui não se trata de exercitar a força, mas de entender a força como único horizonte. E há muitas noites em que tenho pesadelos com gente que aponta meus pés e me expulsa às bofetadas. Ando sempre à beira do exílio. Mordo a língua. Tomo o cuidado de não respirar fundo demais.

            Qualquer indisposição expressa às claras é um risco muito alto. Há sempre um controlador à espreita. Mesmo em manifestações de alegria, eles destroçam às dentadas quem surge de repente com o rosto mal lavado. E o corpo tem das suas tiranias. Qualquer onipotência teria se esvaído entre as pernas como a menstruação.

Maiara Gouveia. Texto original: São Paulo, 2010.

Imagens. Yulia Napolskaya.

habitar outra voz

fazer da voz um campo de acolhida — uma habitação pra refugiados — talvez seja uma das potências da poesia 》 aqui, num arranjo pela democracia, num @ato.poetico

habitar este livro. habitar a voz de uma das pessoas que mais admiro e quero bem, @marciatiburi ♡

habitar cada voz que ache espaço entre as palavras (e que elas cresçam desta semente de mostarda) guardar um instante como quem atravessa a fragilidade e nesse gesto tece um manto em favor da pele (do que na pele é fôlego 》 pra si e pro outro)

guardar este instante como quem respira fundo

outra vez

#atopoetico #poesia #resistência

Salinas (excerto)

Foto: Pierre Pellegrini

 
[Uma história que comecei a escrever em 2010 e que em 2020 parece urgente.]

capítulo 1 | não esqueça

            Instituiu-se a lei do banimento.

            O perigo – foi dito – é o contágio. A peste espraiar-se entre os muros e as telhas e fazer do cenário uma doença sem cura.

            O inverno estende-se no solo (pele e sudário), e a memória cumula porções de branco: amontoa salinas à ideia de alvura abrasiva.

            Salina: planura de cristal feita de mar evaporado. Ausência de sal. Ausência de mar. Só há estas nevascas de fazer ferida. Porém é proibido. Ferir-se.

            Não esqueça.

            Os primeiros expulsos foram os idosos e os debilitados. E agora são tantas minúcias a decidir quem permanece, que imagino a fundação de um continente de banidos.

            O dia de recolher é o pior. Espiam cada fresta de espaço à cata dos feridos. E despejam a humanidade em caçambas, repartida em pilhas simétricas.

            Quando a galé avança, a náusea reverbera (na luta em si mesma) a litania úmida dos cativos (um canto pra dentro). E porque humilhação a mais estoura em revolta, às órbitas de cada corpo – marcado com uma sentença numérica – acopla-se o “carcereiro químico”.

            O “carcereiro” é um implante. Castra o ímpeto e até o ânimo. O corpo abatido entende e suporta. Isso dura até o ponto de chegada: o território do descarte.

            Se as tentativas de rebelião não se tornaram regra, o mesmo não se diz das bacias quebradas, fratura de ossos, gente a se espatifar no chão como louça suja.

            E os pequenos perguntaram coisas impossíveis. Queriam entender o esquecimento. E com o espanto preso à face, insistiam “esquecimento”, tomados de assalto pelo som da palavra e pelo sentido alheio de sua música.

            Enregelados na súbita revelação, subiam, no íntimo, montanhas de gelo. Descobriam a afinidade fundamental entre ascensão e densidade. Isso. E como se transforma gente em coisa inválida.

Maiara Gouveia. Texto original: São Paulo, 2010.

XANTO | Poesia brasileira, livros da década: parte IX

escamandro

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Proposta, organizada e publicado em curtíssimo espaço de tempo, nas últimas semanas de Junho de 2013, no centro dos acontecimentos políticos que sacudiram vigorosamente o país, Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (editada apenas como livro eletrônico), feita por Fabiano Calixto e Pedro Tostes, ainda é, passados já mais de seis anos, a expressão artística mais imediata e ao mesmo tempo mais significativa daquele contexto, surgindo como uma sua consequência direta, uma espécie de instantâneo tomado no calor da hora, pleno de espontaneidade e desorganização, nascido sem…

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Módulo 2 | Quando a poesia irrompe: a instauração do possível na linguagem

Aula 5. Poesia: uma ruptura na linguagem

Preparação da aula de abertura do módulo 2 do curso Morfologia do Profano: a irrupção da poesia

trechinho inicial do texto | base para a redação da apostila

poema_objeto_brossa
Poema Objeto (1967) | Joan Brossa

Pois assim falam os inspirados; e os ouvintes, que se encontram manifestamente no mesmo estado, aceitam essa linguagem. Por isso ela se harmoniza também com a poesia: porque a poesia se origina da inspiração. (ARISTÓTELES)

A poesia, na tradição poética arcaica, é tida como a linguagem dos deuses. Platão nos diz que ela é o “sentido real das coisas”. Na inspiração, o poeta é uma passagem: elide a si mesmo e dá lugar à voz divina. A irrupção da poesia, nesse caso, é a irrupção de uma razão incontestável.

Ao ser tocado pela “realidade total”, de simples porta-voz, o poeta passa à posição sacerdotal, agora ele é o mediador entre as outras pessoas e a divindade, é quem transmite e ensina a verdade, a verdade mais pura (e a mais pura verdade). Pelas formas poéticas se ouviam os mitos: a palavra sagrada; isto é, a moralidade; isto é, os mandamentos de como viver.

pois o poeta é um bem sutil, alado e sagrado; ele não é capaz de compor antes de ser inspirado pela divindade, de estar fora de si, e antes que a razão não esteja nele; enquanto conserva esta faculdade, todo ser humano é incapaz de compor e profetizar. (PLATÃO)

À medida que a história avança, a poesia lentamente se descola dos sentidos fundadores e se torna ela mesma a tradução de uma passagem. Ou: à medida que a história avança, fica mais aguda e espalha raízes a consciência da ambivalência na voz poética.

A poesia é agora um coro onde se ouvem dissonâncias, onde a palavra é ao mesmo tempo a irrupção de um sentido intenso e de um silêncio de igual intensidade. Mas esse sentido não é mais o “sentido real das coisas”, ele é a própria coisa, a coisa abrindo-se e abrindo mais frestas, caminhos, passagens, mais possibilidades de sentido e de dizê-los. A poesia, portanto, é a instauração do possível na linguagem.

 

Maiara Gouveia. 9 de outubro de 2019.