Salinas (excerto)

4. EXCLUSÃO

            A galé dos banidos avança à cidade do despejo. O passeio penetra a bruta névoa. (…). Os assobios do vento, uns uivos de demônio, somem no destino, um lugar baixo.

[…]

                     ─ Antes amnésia ─ uma voz gravíssima suspende o rito insone.

            ─ Antes demência. Porque na triagem dos corpos, os loucos e desmemoriados também são lançados no poço, e somem do abandono assim, na ignorância do crime praticado.

            ─ Cuspir na tua cara, chutar a porcelana da tua espinha, e seríamos só infelizes quebrantados, urinados nas calças, no meio do frio. Somos gente, e essa falha não se faz poeira úmida.

            ─ Antes a memória no encalço do erro, ensaiado e estresido desde cedo, até ser dito natural. Durante o pânico, até os insetos matam em bando. Sem suspeitar da culpa. Sem cogitar a pena.

            ─ Só a memória desmancha a nódoa inscrita nas coisas pela repetição da cegueira.

            ─ Pela força dessas lembranças, eu talvez vivesse mais um século. É tanto a fazer.

            ─ Eu só quero dormir.

            ─ E há casas no exílio?

            ─ Às vezes.

            ─ Talvez.

            5. NUS

            Se a pele contrai o frio como quem contrai um delírio de febre, o frio, por sua vez, contrai os séculos como se cada século fosse uma doença, um pensamento mórbido, uma dívida que é impossível pagar. 

            Aquela gente falida, com chagas em alguma parte do ofício de existir, tudo multidão espoliada.

            Os primeiros expulsos remoem as cenas. O arrependimento coletivo sob a peste.

            E a muralha do continente sobe até o ponto onde se oculta o limite. O ponto máximo. Babélico.

          Afundo os calcanhares na brancura. Não tenho mais corte. Só incômodo. Memória de uma dor.

            Penso no barco talvez impossível. E a distração se estende até o pássaro, com o bico no vazio, à espera da história com migalhas.

            B. ainda está aqui. Anda em si como num estranho à procura de toalete. Como alguém dopado pela fumaça de um incêndio no porão, que de repente se visse em casa alheia. O garimpeiro – não esquece – recolhe a beleza debaixo de muita lama e esforço. Pra o luxo de outros. Pra o próprio sustento.

            Morde a maçã. A carne da fruta é cruelmente alegre. Morde como se não comesse há séculos

            : com fome.

            Pediria pão. Pediria água. Pediria mel e leite. Porém há um crime, e é preciso saber mais. Mas o que é preciso saber?

            Não devia explicar. Outros dizem que sim, devia explicar mais. Há sempre muitas dívidas a levar em conta.

            Talvez seja um tipo de arrogância. Pensar como quem nada em mar aberto. As espáduas se enganam que são asas, e então se assombram com o estrondo do fluxo, quando o fluxo se agrava. E o vento cava uma fenda miúda no rosto, e a boca se abre pra engolir o que puder deste espaço. Que existe sem nós.

            Antes, os pássaros da carnificina eram mansos como terra seca. Deixei a morte à vista. Delirei a respeito de coisas bem maiores do que a humanidade. Devia ter vergonha de não cobrir o rosto. De não esconder os lábios rachados pelo frio.

            Há mais de um crime. Porém agora é a criatura despelada o que ainda dissecamos. A falta de ar incha o rosto flébil, e B. exibe os coturnos cheios de neve, o contorno escuro da face, a mancha azul e roxa entre os dedos. Ainda assim parece com mais vida do que Tácito. Lentamente ressuscita nos registros, enquanto as roupas rubras, em volteios, enchem a sala de sol. Sangue, incêndio. Não sei mais. É criatura antiga, anárquica, desenho de esfinge no imaginário da lei.

            É preciso saber. Isso demora. E é preciso saber o que saber. E como saber. E quando.

            Mas não se sabe.

            Qualquer pista é um nome gasto.

            O corpo dobra de tamanho, dobra a dor na respiração, a dor nas costelas: bendita seja a esterilidade do teu ventre, o alívio sem dono que uma nudez esfrega na floresta inerte das coisas comunicáveis. E então toma nos dedos a tela onde se lê: “é isto”.

            E é só.

            Mas não aceita. Não aceita.

            A pressa, a pressa de um estranho que nada tem com isso (até onde sabe, até onde se sabe), essa pressa atrapalha a reconstituição do crime.

            Um perito precisa de mais de espaço pra devolver a um corpo sua condição de gente.

            Nesta pauta não há mais peritos. O crime é tão antigo que prescreveu. A vítima ainda convulsiona como um possuído enquanto o espírito de porco despenca, e há todo o tipo de coisa a querer do outro lado. O lado onde nenhum de nós pode chegar. Foi essa pressa que trincou o primeiro vidro.

            É preciso voltar, recolher as raspas de remédio vencido, rasuras. É preciso estar aqui, acordado como um louco, entregue e solitário, babando a si mesmo por todos os poros.

            Pulo de vez.

            O desamparo acossa. Digo enfim

sós

            : o que te leva a imaginar fundura humana suportável.

            Voltamos ao limite. Voltamos:

            Estamos nus. E sabemos.

Maiara Gouveia. Texto original: São Paulo, 2010.

Imagens. Stephanie Inagaki.

Salinas (excerto)

2. SUPORTE

            É proibido ferir-se. Não esqueça.

         O comércio de hologramas prosperou. Quem sairia à rua vestido na própria pele? 

            Confinado nas horas mais íntimas, o corpóreo se tornou, pra muitos, um fardo. Nem sempre suportável. Alguns, mesmo sem a condenação ao exílio, pediam a submissão ao “carcereiro químico”, o alívio temporário, mas efetivo, alcançado pela dormência das necessidades e os desejos do corpo recluso.  

            Houve a imposição de regras específicas a certos tipos de suporte. Por exemplo, só se permite menstruar a quem puder pagar o preço.

            Taxada pelo preço do ridículo ou do fantástico, a decisão de recusar o código antimenstrual, regulador dos ciclos do suporte fêmeo.

            Suporte.

           Foi assim com as refugiadas. Foi assim com as cerzideiras. Pagaram o preço.

           […]

3. CERZIDEIRAS

            Fico neste quarto até cansar de ver a sombra das grades no tule e na pele. Forma recortes na brancura, que se estende – interminável – até o vestido. Ali, nas bordas da caixa, parece um pano eviscerado.

            A janela tem grades pra impedir que os meninos se acidentem. Nenhum deles virá hoje. Nada das correrias e os gritinhos em falsete. Faço de conta por eles que sou eu. A cerzideira.

            Imagino o continente do tamanho de um dedal. Agora sou bem menor que a cabeça de uma agulha. E estou entre as caixas, os trapos, as coisas esquecidas. Com olhos que são furos num lençol.

            Gosto das cenas com lençóis: a quietude balança, toda limpa (e por um fio). Pode ser no leito de núpcias, a espera esticada e branca. Uma espera por levantes. Porque os lençóis são signos de anúncio. Logo se reconhece o tumulto das vozes em cada tira de algodão. O sono interrompido pelo gesto: expiração da força onírica.

           Os pequenos, por exemplo, transformam o tecido em lábaros de guerra: os panos são rapidamente arrebatados por pirataria e heroísmo.

           Os amantes, por sua vez, as tramas macias com outro ritmo: o brusco do imprevisto. Porque é insustentável a placidez da costura.

            Sinto-penso: estou aqui por vontade própria. Mas sei bem que estou prisioneira de incidentes que me ultrapassam. Fora daqui há tanta neve. Queima até a voz. Imagine isto: uma voz incendiada pelo frio. Pó, fendas, quinquilharias. Sou parte do que tem falhas. Cubro esse escândalo com tule branco.

            Imagine isto: alguém vai ao médico, e o médico censura a exibição despudorada de uma febre ou, pior, de uma doença crônica. Aqui não se trata de exercitar a força, mas de entender a força como único horizonte. E há muitas noites em que tenho pesadelos com gente que aponta meus pés e me expulsa às bofetadas. Ando sempre à beira do exílio. Mordo a língua. Tomo o cuidado de não respirar fundo demais.

            Qualquer indisposição expressa às claras é um risco muito alto. Há sempre um controlador à espreita. Mesmo em manifestações de alegria, eles destroçam às dentadas quem surge de repente com o rosto mal lavado. E o corpo tem das suas tiranias. Qualquer onipotência teria se esvaído entre as pernas como a menstruação.

Maiara Gouveia. Texto original: São Paulo, 2010.

Imagens. Yulia Napolskaya.

habitar outra voz

fazer da voz um campo de acolhida — uma habitação pra refugiados — talvez seja uma das potências da poesia 》 aqui, num arranjo pela democracia, num @ato.poetico

habitar este livro. habitar a voz de uma das pessoas que mais admiro e quero bem, @marciatiburi ♡

habitar cada voz que ache espaço entre as palavras (e que elas cresçam desta semente de mostarda) guardar um instante como quem atravessa a fragilidade e nesse gesto tece um manto em favor da pele (do que na pele é fôlego 》 pra si e pro outro)

guardar este instante como quem respira fundo

outra vez

#atopoetico #poesia #resistência

Salinas (excerto)

Foto: Pierre Pellegrini

 
[Uma história que comecei a escrever em 2010 e que em 2020 parece urgente.]

capítulo 1 | não esqueça

            Instituiu-se a lei do banimento.

            O perigo – foi dito – é o contágio. A peste espraiar-se entre os muros e as telhas e fazer do cenário uma doença sem cura.

            O inverno estende-se no solo (pele e sudário), e a memória cumula porções de branco: amontoa salinas à ideia de alvura abrasiva.

            Salina: planura de cristal feita de mar evaporado. Ausência de sal. Ausência de mar. Só há estas nevascas de fazer ferida. Porém é proibido. Ferir-se.

            Não esqueça.

            Os primeiros expulsos foram os idosos e os debilitados. E agora são tantas minúcias a decidir quem permanece, que imagino a fundação de um continente de banidos.

            O dia de recolher é o pior. Espiam cada fresta de espaço à cata dos feridos. E despejam a humanidade em caçambas, repartida em pilhas simétricas.

            Quando a galé avança, a náusea reverbera (na luta em si mesma) a litania úmida dos cativos (um canto pra dentro). E porque humilhação a mais estoura em revolta, às órbitas de cada corpo – marcado com uma sentença numérica – acopla-se o “carcereiro químico”.

            O “carcereiro” é um implante. Castra o ímpeto e até o ânimo. O corpo abatido entende e suporta. Isso dura até o ponto de chegada: o território do descarte.

            Se as tentativas de rebelião não se tornaram regra, o mesmo não se diz das bacias quebradas, fratura de ossos, gente a se espatifar no chão como louça suja.

            E os pequenos perguntaram coisas impossíveis. Queriam entender o esquecimento. E com o espanto preso à face, insistiam “esquecimento”, tomados de assalto pelo som da palavra e pelo sentido alheio de sua música.

            Enregelados na súbita revelação, subiam, no íntimo, montanhas de gelo. Descobriam a afinidade fundamental entre ascensão e densidade. Isso. E como se transforma gente em coisa inválida.

Maiara Gouveia. Texto original: São Paulo, 2010.

XANTO | Poesia brasileira, livros da década: parte IX

escamandro

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Proposta, organizada e publicado em curtíssimo espaço de tempo, nas últimas semanas de Junho de 2013, no centro dos acontecimentos políticos que sacudiram vigorosamente o país, Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (editada apenas como livro eletrônico), feita por Fabiano Calixto e Pedro Tostes, ainda é, passados já mais de seis anos, a expressão artística mais imediata e ao mesmo tempo mais significativa daquele contexto, surgindo como uma sua consequência direta, uma espécie de instantâneo tomado no calor da hora, pleno de espontaneidade e desorganização, nascido sem…

Ver o post original 644 mais palavras

Módulo 2 | Quando a poesia irrompe: a instauração do possível na linguagem

Aula 5. Poesia: uma ruptura na linguagem

Preparação da aula de abertura do módulo 2 do curso Morfologia do Profano: a irrupção da poesia

trechinho inicial do texto | base para a redação da apostila

poema_objeto_brossa
Poema Objeto (1967) | Joan Brossa

Pois assim falam os inspirados; e os ouvintes, que se encontram manifestamente no mesmo estado, aceitam essa linguagem. Por isso ela se harmoniza também com a poesia: porque a poesia se origina da inspiração. (ARISTÓTELES)

A poesia, na tradição poética arcaica, é tida como a linguagem dos deuses. Platão nos diz que ela é o “sentido real das coisas”. Na inspiração, o poeta é uma passagem: elide a si mesmo e dá lugar à voz divina. A irrupção da poesia, nesse caso, é a irrupção de uma razão incontestável.

Ao ser tocado pela “realidade total”, de simples porta-voz, o poeta passa à posição sacerdotal, agora ele é o mediador entre as outras pessoas e a divindade, é quem transmite e ensina a verdade, a verdade mais pura (e a mais pura verdade). Pelas formas poéticas se ouviam os mitos: a palavra sagrada; isto é, a moralidade; isto é, os mandamentos de como viver.

pois o poeta é um bem sutil, alado e sagrado; ele não é capaz de compor antes de ser inspirado pela divindade, de estar fora de si, e antes que a razão não esteja nele; enquanto conserva esta faculdade, todo ser humano é incapaz de compor e profetizar. (PLATÃO)

À medida que a história avança, a poesia lentamente se descola dos sentidos fundadores e se torna ela mesma a tradução de uma passagem. Ou: à medida que a história avança, fica mais aguda e espalha raízes a consciência da ambivalência na voz poética.

A poesia é agora um coro onde se ouvem dissonâncias, onde a palavra é ao mesmo tempo a irrupção de um sentido intenso e de um silêncio de igual intensidade. Mas esse sentido não é mais o “sentido real das coisas”, ele é a própria coisa, a coisa abrindo-se e abrindo mais frestas, caminhos, passagens, mais possibilidades de sentido e de dizê-los. A poesia, portanto, é a instauração do possível na linguagem.

 

Maiara Gouveia. 9 de outubro de 2019.


 

Como escreve Maiara Gouveia

Entrevista concedida à página Como eu escrevo

Maiara-Gouveia

Uma delícia responder a entrevista do Como eu escrevo, maravilha de iniciativa do José Nunes De Cerqueira Neto.

A página é feita de conversas com escritores e pesquisadores: a generosidade das partilhas.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

“A manhã começa a bater no meu poema. / As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores líricas. / Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema. / Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas, / o rodopio das rosáceas do meu / poema batido pela revelação das coisas…” Herberto Helder

A revelação das coisas, no meu quarto, é anunciada pelo barulho estridente do alarme. “Só mais um pouquinho”, penso. Nesse instante, meu nome é legião. Depois, sigo pelo gesto de esticar os dedos e virar o corpo todo pra esquerda (sei que é pra esquerda porque meu ombro direito às vezes sai do lugar – luxação –, então evito qualquer manobra na direção dele). Esse é o movimento – quase diário – pra sair da cama.

O restante muda de acordo com a exigência do trabalho ou o projeto mais recente. Conforme a época, nem acordada estou de manhã, ou vou dormir justo quando amanhece.

“…Batem nas portas palavras, / sobem as escadas desta intimidade. / É como uma casa, é como os pés e as mãos / das pessoas invasoras e quentes (…) O povo traz coisas para sua casa / do meu poema. /(…) A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida / do mundo.” Idem (HH)

Citei Herberto Helder. Podia ter citado Chico Buarque: “escuto a correria da cidade / que alarde / será que é tão difícil amanhecer?”.

Mesmo em tempos de trabalho com rotina inflexível, hora marcada logo cedo, prefiro levantar antes e acordar direitinho, no meu ritmo matutino de quem entra na história pela primeira beirada.

Se fosse de noite ou de madrugada, o texto seria outro.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Preciso de um ponto de partida, e esse ponto de partida é variável: o envolvimento com um livro ou um tema ou uma experiência, o que for que me deixe com excesso afetivo de linguagem. Vou chamar assim: excesso afetivo de linguagem.

Com isso, a escrita puxa fios de si mesma, descobre o próprio método, exige os ajustes necessários, os improvisos e as lacunas necessárias.

Não existe ritual. Pelo menos, não existe ritual fixo.

Prefiro estar sozinha e no maior silêncio possível, mas desligo de tudo em volta se um texto captura minha atenção.

“Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. / Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. / Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie. / Vou chamar-lhe fio _____ linha, confiança, crédito, tecido.” Maria Gabriela LLansol

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Escrevo diariamente. Notas e textos breves, rabiscados em cadernos ou em blocos (de papel ou nas telas disponíveis). Textos maiores, como ensaios ou artigos, elaboro e organizo em períodos concentrados. Não tenho meta de escrita diária. Mas não fico sem escrever.

“Está em causa o que me move a escrever (o mundo) e o que me faz sentir (a / literatura). São quase sinônimos. E são-no quase porque, entre a literatura e o / mundo há ainda o ressalto de uma frase. Este ainda é precioso. (…) O / ressalto da frase é, propriamente falando, vital. Sem ele, os nossos corpos / não poderiam respirar. Teriam falta de desconhecido.” Maria Gabriela LLansol

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Nunca é difícil começar. Escrever (por aqui) é a própria substância de criar sentido – na carne e no signo.

Seria difícil não começar. Muito mais difícil acabar do que começar. Sempre achei.

A pesquisa é um tipo de leitura ativa, e a leitura ativa é a quase a gênese da escrita. São modalidades do mesmo ato. E vasos comunicantes.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Há nove anos escrevo o mesmo romance, o Salinas. Quando imagino que terminei a escrita, fico profundamente insatisfeita com algo e remexo em tudo. A própria encarnação da Penélope.

Talvez seja um ideal de resultado que se move conforme avanço. Talvez porque ainda não me considere pronta pra me tornar romancista. Às vezes tenho vontade de desfazer o livro em contos, histórias breves. Como escrevo principalmente poesia e ensaio, tenho o hábito arraigado da linguagem concentrada.

Também é como se o livro fosse virando outra coisa conforme o tempo passa. As questões que moviam a escrita dele. O jeito que pretendo escrevê-lo. Assim, uma década quase.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Não acredito em texto pronto, só existe texto esgotado, exaurido, e a partir do esgotamento não vai dizer nada a não ser se explicar ou se repetir. É o momento de parar. Na filigrana há sempre o que mexer, e sempre mexo, mesmo depois de o texto ter sido publicado.

Mostro trabalhos pra pessoas específicas antes de publicá-los. Nem tudo, mas boa parte.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Anos atrás, mandei cópias de manuscritos pra gente querida, com detalhes pensados pra cada uma. Como troca, elas mandariam rastros de leitura na forma que desejassem. Chamei essa ação artística de “O Antilançamento”. Isso foi em 2010.

Uma das propostas era pôr ênfase na ideia de que o livro não é só o produto que se lança às vendas; antes disso, é o cerne da correspondência entre quem escreve e quem lê, é um acúmulo de vestígios, secreções, ruídos.

Posso escrever em qualquer meio (mídia), em qualquer suporte – e escrevo bastante no celular e no computador –, mas tenho prazer especial em encher cadernos, folhas de papel, desenhar as letras, pôr a língua na tinta.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?

As ideias vêm da parte do corpo capaz de perceber o quase imperceptível, da parte do corpo que arrisca traçar zonas em formação, antecipá-las na linguagem, na transição do enigma aos significados móveis.

E toda paisagem é móvel. Com Maria Gabriela Llansol, acredito na escrita-paisagem:

“O falar e negociar o produzir e explorar constroem, com efeito, os acontecimentos do Poder. O escrever acompanha a densidade da Restante Vida, da Outra Forma de Corpo, que, aqui vos deixo qual é: a Paisagem. Escrever vislumbra, não presta para consignar. Escrever, como neste livro, leva fatalmente o Poder à perca da memória. E sabe-se lá o que é um corpo Cem Memórias de Paisagem.”

Criar é abrir e inaugurar a paisagem ao projetar essa mesma paisagem. Chamo essa tarefa de traçar Cartografias do Possível.

(Inclusive, estou lançando uma série de cursos com esse título, Cartografias do Possível. O curso inaugural é “Morfologia do Profano: a irrupção da poesia” e diz muito dos meus processos criativos e de reflexão, de obras que me instigam a escrever, de como penso os efeitos da literatura na arte –como estética e como relação com a política etc.).

Ler ativamente desde as coisas mínimas – habitualmente insignificantes – até as estruturas e os pontos nodais, cruciais. Isso é criativo. Pôr o dedo na ferida. Na ausência. No jogo.

A criatividade é misturada à minha identidade. Não preciso me preocupar em mantê-la.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

“De muito pôr o mundo na cabeça (entre livros, personagens, experiências variadas), de muito olhar para ele com atenção e desconfiança, chega-se à estrutura ficcional de tudo o que existe. Daí, sobram muitos cacos. É desse resto que nasce um escritor-artista”, falei isso em 2011, num trechinho do artigo “estalo no meio da orquestra”, pra oficina A Prática do Texto, da amiga e escritora talentosa Ana Rüsche.

Ainda acredito nessa fala. Ainda é parte fundamental do meu processo de escrita. Porém, se você lê o meu primeiro livro, o segundo e o mais recente, se você acompanha minha produção desde a adolescência até hoje, aos 35, há uma mudança significativa na composição, na elaboração dos mesmos temas.

Amadureci. A escrita amadureceu comigo. Passei por vários tipos de experiência. A escrita experimentou comigo.

“…Refere-se a um acontecimento, um momento, uma mudança vivida como significativa, solene: uma espécie de tomada de consciência ‘total’, precisamente aquela que pode determinar e consagrar uma viagem, uma peregrinação num novo continente (a selva oscura), uma iniciação (há um iniciador: Virgílio – teremos também o nosso).” Barthes comenta a atividade da escrita à luz da Divina Comédia: escrever é estar “a meio caminho desta vida”. (BARTHES, Roland. A preparação do romancevol. I. São Paulo: Martins Fontes, 2005.)

Diria tanto à Maiara mais jovem. Mas não sei se ela estaria pronta pra ouvir.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Tenho vontade de fazer um livro com notas desse tipo, minhas anotações esparsas: “Se a palavra flor abrisse inflorescências. /Se em cada face glabra, abracadabra: /outra forma desdobrada. /E se nada se quebrasse, /nem o baço, nem a margem de manobra. /O abraço ficaria pendurado/ na miragem, / onde a cabra entornaria o seixo, /a despencar no grito (espaço aberto) / e a garganta viraria tempo /– um tempo de retorno – /até que o verbo fosse inverso: /substância, inflorescência. (Poema que não entrou na edição final do Antes que se rompa o fio de prata.)

Isso incomodou o Artaud a ponto de no fim da vida ele só escrever glossolalias. Ele também falava da hiperlucidez do dizer na arte. E a necessidade do teatro era a necessidade de encarnar a palavra.

Mas a palavra pode ser encarnada quando incorporada. Quando se deixa notar o que ela faz no lugar invisível do que abre em nós, e em como somos transfigurados pela relação íntima, intensa, com a linguagem moldável, a que embaralha e desembaralha os signos em composições.

Isso é raiz no meu corpo.”

Quanto ao livro que eu gostaria de ler e ainda não existe, sempre que pensar num assim vou querer escrevê-lo.

“…cada começo / é só continuação / e o livro dos eventos / está sempre aberto no meio.” Wisława Szymborska.