O direito à narrativa é o direito à existência

Imagem: Esther Mahlangu, artista da nação Ndebele.

Para pensar “a legitimidade e o estudo da filosofia africana”, tema do ensaio[1] de Mogobe Ramose (filósofo sul-africano), é preciso confrontar o epistemicídio promovido pelos colonizadores. Epistemicídio, na definição de Ramose, é “o assassinato de maneiras de conhecer e de agir dos povos conquistados”. A imposição dos próprios critérios sobre a produção de conhecimento é uma afirmação de poder que subjuga também intelectual e culturalmente as colônias exploradas do ponto de vista econômico. A autoridade tomada para si pela força (violência) foi necessária à construção da ideia de supremacia branca europeia. A autoridade de definir, conforme Ramose, é o poder de determinar o destino. Essa é outra dimensão do extermínio que resultou das guerras injustas e do mercado de escravizados. Abrir espaço para diferentes filosofias faz parte de acolher a autodeterminação dos povos quanto à sua existência intelectual e quanto à legitimidade do conhecimento que produzem (o que não significa prescindir de critérios e rigor). Evitar definições autoritárias (“isto é assim, de uma vez por todas”) é evitar epistemicídios.

Embora nosso foco seja o ensaio de Ramose, a resistência do “outro” pode partir da crítica feminista à noção de “sujeito universal”, conceito de Virgínia Woolf em A room of one’s own [1929], que reivindica condições para a produção intelectual das mulheres. Mogobe Ramose cita o proselitismo cristão e a ideia filosófica de “sujeito racional” como armas do poder sobre os povos colonizados (também comenta a questão das mulheres). Questiona a universalização do particular de uns em detrimento do de outros e propõe, em vez disso, a noção de pluriversalidade. O distinto do pretenso “universal”, o “outro”, é categorizado como irracional (na tradição da filosofia ocidental) e como condenado (pela religião cristã). A categoria é própria do que se considera objeto, não sujeito, tipo de violência posto em xeque também por Renato Noguera, que estuda as filosofias afro-brasileiras e as indígenas[2]. Renato contribui à reflexão quanto às “origens da filosofia”, que recusa o estatuto ontológico na base da exclusão ou da inferiorização da diferença (alteridade). Outra contribuição relevante para esta conversa é o celebrado O perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozi Adichie. Por fim, destacamos que o apagamento da subjetividade (desumanização) do “outro” atingiu e atinge a imagem e os corpos desses outros. Isso indica que o direito à narrativa é o direito à existência.


TEXTO VINCULADO (anterior): Um antídoto às linguagens autoritárias.

[1] “Sobre a Legitimidade e o Estudo da Filosofia Africana”. Em: RAMOSE, M. B. Ensaios Filosóficos, Volume IV – outubro/2011.

[2] “Introdução à filosofia a partir da cultura e da história dos povos indígenas”. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/riae/article/view/23786


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