Um antídoto às linguagens autoritárias

Imagem: VIDA COMPARTILHADA [detalhe], do artista S.C. Suman (Subodh Chandra Das)

Filosofia e ensino de filosofia como antídoto às linguagens totalitárias. Na reflexão filosófica, é justamente a presença de obstáculos, de “becos sem saída” (aporias) em certas percepções e abordagens num sistema específico de compressão da realidade o que inaugura as diferentes formas de fazer e de ensinar filosofia. Essas diferentes formas são destacadas por Gonzalo Armijos (no artigo “O ensino da filosofia e a ‘situação-problema’”) em oposição a noções normativas do que é filosofia e do que é o ensino de filosofia.

A proposta (para o ensino e o fazer filosófico) é repensar os conceitos e as formas estabelecidas (sobretudo as autoritárias), é um convite à abertura para a diversidade de perspectivas e também à tensão do que não se resolve, do que segue como desafio e flexível a ajustes e a reformulações conforme as circunstâncias e o tipo de problema enfrentado por quem filosofa ou ensina a filosofar (isso resulta em compreender como válidas definições diversas do fazer filosófico que surgem em cada contexto: histórico, sociocultural etc.).

(“A filosofia, aqui, também coloca em questão a si mesma”, grifa a professora Juliana Oliva, da FEUSP).

Nessa perspectiva, a necessidade de achar uma solução já não é o coração do desafio. Agora, o acolhimento do obstáculo e do desafiador é o que move o pensamento filosófico. Digo: o acolhimento do desafio é um estímulo ao serviço de refazer o real a partir da modulação do que se compreende como real. Ao dizer modulação, penso em diálogo (essa “condição do fazer filosófico”, conforme Platão citado por Armijos). Diálogo com a pluralidade do atual e com a pluralidade do passado (a tradição canônica ocidental mais o resgate das vozes silenciadas em modelos excludentes).

E ao pensar em filosofia como exercício de refazer o real a partir da modulação do que se compreende como real, lembro do ensaio “Profanações”, do filósofo italiano Giorgio Agamben, que termina com o chamado à tarefa de “profanar o improfanável”, quer dizer, à tarefa de devolver ao uso comum (e ao jogo) o que foi separado do espaço público e confinado ao uso (ou abuso) restrito.

O que Agamben propõe, em sintonia com o exposto, é democratizar o que se instrumentalizou como totalitário, é libertar no que se tornou propriedade privada (conceitos, formas de agir etc.) a potência profanadora da partilha: a oportunidade de, contagiado pelo “outro”, poder ser de outra forma, poder modular as cartografias do possível.

VER TAMBÉM A questão das linguagens totalitárias em O que pode o corpo de uma língua?

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. “O Elogio da Profanação”. Em: Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.

ARMIJO, Gonzalo. “O ensino da filosofia e a ‘situação-problema’”. Em: CARVALHO, Marcelo. CORNELLI, Gabriele. Filosofia e Formação. Volume 1. Cuiabá, MT: Central de Texto, 2013. Disponível em: https://educapes.capes.gov.br/bitstream/capes/401646/1/Filosofia%20e%20forma%C3%A7%C3%A3o_Vol_1.pdf

OLIVA, Juliana. Apresentação do Curso Introdução aos Estudos da Educação (enfoque filosófico). Produção do Diário de Bordo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s