POÉTICAS DO OLHAR: ALBERTO CAEIRO E ÁLVARO DE CAMPOS

imagem: “Perseguindo nuvens”, arte de Gemmy Woud-Binnendijk

1. Alberto Caeiro

 “Eu nunca guardei rebanhos / Mas é como se os guardasse”. Assim Caeiro se apresenta no início do conjunto de poemas “O Guardador de Rebanhos”. Conforme Glagliardi (2006): “Alberto Caeiro é alegoricamente pastor, uma vez que sua proposição inicial é essencialmente metafórica: ‘as minhas ideias são o meu rebanho’”. Através desse artifício da linguagem, o personagem-mestre pastoreia seu ideário: a objetividade plena de um olhar imerso na paisagem natural, tomado pela irrupção, sempre renovada, da real natureza das coisas.

“O meu olhar é nítido como um girassol.  / Tenho o costume de andar pelas estradas / Olhando para a direita e para a esquerda, / E de vez em quando olhando para trás…  / E o que vejo a cada momento / É aquilo que nunca antes eu tinha visto, / E eu sei dar por isso muito bem / Sei ter o pasmo essencial / Que tem uma criança se, ao nascer, / Reparasse que nascera deveras…/ Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do mundo…”. (Caeiro: 2011)

Caeiro teria escrito “O Guardador de Rebanhos” e “O Pastor Amoroso”, duas das três composições de sua obra, longe de Lisboa, sua terra original. O fragmento fictício-biográfico é parte da construção dessa voz que se distancia da modernidade pela intenção de incorporar uma simplicidade ancestral: a aldeia da tia-avó. O cenário, portanto, figura o arcabouço de sensações a um visitante-autor que só está ali idealmente. Há, nesse ideal, o afastamento de uma origem de fato e a fundação de outra: um deslocamento ontológico.

A poética do olhar, em Caeiro, é a utopia de um despojamento radical, a de um deus menino que abdicasse de sua condição de transcendência (cristã) para indicar nas formas naturais a visão da realidade absoluta, o real imediato (quer dizer, não mediado), cujo sentido é estar no eterno presente, sagrado em cada uma de suas aparências.

“O Menino Jesus adormece nos meus braços / E eu levo-o ao colo para casa. / Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. / Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. (…) E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,/ E que o meu mínimo olhar / Me enche de sensação, / E o mais pequeno som, seja do que for,/ Parece falar comigo. (…) A mim ensinou-me tudo. / Ensinou-me a olhar para as cousas.”

A infância que serve de modelo a essa poética é a potência divina que se move em cada sensação como se renascesse em cada olhar:

“Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos, / Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores, / Isso será uma alegria e uma novidade para mim.” (Caeiro: 2006),

como se nesse percurso fosse cada vez mais radicalmente se desnudando das camadas de obstrução entre quem vê e o que é visto, despindo-se da filosofia, da teologia etc., para atingir a pura imanência.

“Aparentemente destituído de ânsia especulativa, ele escapa às aporias da metafísica, e potencializa, como pedra de toque dessa poesia, uma filosofia da visão; uma visão sem artifício ou sede interpretativa, que elege como referência o modelo infantil, sem ignorar, no entanto, o universo cultural que lhe segue. Dessa forma, a hipótese de um suposto momento original e absoluto, porque uno, transforma-se num caminho crítico em ‘O guardador de rebanhos’, cujo vetor principal aponta da complexidade para a simplicidade.” (Gagliardi: 2006)

            “Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.”, diz Caeiro (2006) em “O Pastor Amoroso”. Essa ilustração infantil, de uma linguagem “despida de afetos e apelos emotivos, sem metro, rima, jogos sonoros ou marcação rítmica” que “se vale, em síntese, daquilo que se apresenta como natural e espontâneo” (Gagliardi: 2006) não se desfaz, porém, da constatação de um impedimento: “Porque me falta a simplicidade divina / De ser todo só o meu exterior”, conclui Caeiro (2011).

O imaginário poético sempre substitui a presença das coisas a que alude, porque a natureza da imagem é sinalizar não um estado de presença inesgotável, mas uma distância e uma ausência. Onde há olhar, a nudez é inatingível, e é inatingível a dissolução da barreira entre sujeito vidente e objeto visível. Entre ambos há o visto, que se torna imaginado.

2. Álvaro de Campos

Álvaro de Campos, o engenheiro naval, encena uma insatisfação voraz, que diz desejar “sentir tudo de todas as maneiras”, abranger tempos e espaços distintos, distintas formas de ser, a partir de um olhar radicalmente deslocado de uma suposta imediatez do real. A poética de Campos enfatiza a tensão entre o edifício das sensações e a visão de uma paisagem artificial, “untada mistura metálica e marítima”, em que o maquinal e o sensível alternam-se na expressão de uma ânsia e um saudosismo em contraponto.

 “(…) E os navios vistos de perto, mesmo que se não vá / [embarcar neles, / Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas, / Vistos dentro, através das câmaras, das salas, das / [despensas, / Olhando de perto os mastros, afilando-se lá pro alto, / Roçando pelas cordas, descendo as escadas incómodas, / Cheirando a untada mistura metálica e marítima de / [tudo aquilo — / Os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma / coisa,/ Dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira.” (Campos: 2013)

Novamente, um fragmento fictício-biográfico ilustra o caráter desta voz poética: diferente dos outros heterônimos, Campos não escreve a tinta, mas na máquina de escrever. Nascido em Tavira, uma pequena cidade na costa algarvia de Portugal, vai estudar na Escócia e passa férias no Oriente, mas depois retorna a Portugal, mora em Lisboa. Tem o olhar de quem acrescentou camadas de complexidade cultural e de civilidade à sua origem, de quem exibe as entranhas do mecanismo que produz a vertigem das sensações. Conhecido pela grandiloquência e o ímpeto de uma palavra que sempre extrapola os próprios vislumbres, no entanto revela – em seus artefatos poéticos – a forja que são os procedimentos de pensar.

Fernando Pessoa, numa apresentação dos poetas sensacionistas ao público inglês, escreve a respeito do que considera a obra-prima de Campos, o poema “Ode Marítima”: “…ocupa nada menos do que 22 páginas de Orpheu, é uma autêntica maravilha de organização. Nenhum regimento alemão jamais possuiu a disciplina interior subjacente a essa composição, a qual, pelo seu aspecto tipográfico, quase se pode considerar um espécime de desleixo futurista”.

A dissonância na aparente adesão ao canto moderno em Campos, que exibe sempre um contracanto nostálgico, aponta o que Leyla Perrone-Moisés (1990) chama de “o futurismo saudosista de Fernando Pessoa”.

3. Conclusão: duas poéticas do olhar, o mesmo espinho

“Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente”, diz Álvaro de Campos no poema Vilegiatura. O sensacionismo de Campos é forjado pelo engenho. Caeiro não alcança a plenitude da objetividade (das sensações convertidas em visão) como Campos não experimenta a ubiquidade do olhar, a convulsão do excesso de sensações que duplica a vertigem de movimento e ruído da paisagem industrial.

Os dois projetos exibem a própria fratura. Estilhaçam o pensar-sentir em fragmentos da mesma ficção. Coincidem na tentativa de refazer o olhar numa espécie de fusão com algo diferente da civilização: em Caeiro, o mais simples e o mais natural; em Campos a própria construção “veleiros e barcos de madeira”, na “antiga vida dos mares” que liberta “do peso do Atual”.

Se, como declara o “mestre do olhar”, Alberto Caeiro, “a sensação é a única realidade aceita”, o que ambos produzem é o avesso disso, a exposição do mito subjacente a todo olhar, numa literatura altamente intelectual, altamente crítica, enquanto engendra na palavra poética o sentimento do mundo.

Maiara Gouveia. Junho de 2021.

BIBLIOGRAFIA

BRÉCHON, R. O Eng. Álvaro de Campos, poeta sensacionista (1914-1916).

CAEIRO, Alberto. Poemas completos de Alberto Caeiro. São Paulo: Hedra, 2011.

________________ O Pastor Amoroso. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/vo000006.pdf Acesso em 06 jul. 2021.

CAMPOS, Álvaro de. “Ode Marítima”. Em: Poesia de Álvaro de Campos. Lisboa: Assírio e Alvim, 2013.

GAGLIARDI, Caio. Os três Caeiros. 2006.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. O Futurismo Saudosista de Fernando Pessoa.Em: Actas do IV Congresso Internacional de Estudos Pessoanos (Secção Brasileira). Porto: Fundação Eng. António de Almeida, II vol., p.17-28, 1990.

LOPES, Teresa Rita. Álvaro de Campos (verbete).


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