Ouça isto, Penélope

Odysseus and Penelope. Francesco Primaticcio (1563).

1.

Do sal à lavareda ondina, artimanhas são desfeitas no marítimo.

Ouça isto, Penélope, na minha voz mezzo-soprano: a linha

Entre os dois peixes e o Aguadeiro

No mapa

Na ponta dos meus dedos, é o mapa

Do céu. Onde mundos deságuam em

Histórias milenares desde as minhas

Impressões digitais.

 

Ouça o chiado na espuma: tempo mínimo

De uma vida. Semínima

Ou fôlego

Interrompido noutra fala. O corte e o recorte

Da sua figura arredia e

Reconfigurada

A cada luz.

 

Ou a luz ou o rasgo de ave no ponto

Mais alto da onda:

Ferida de açúcar na testa do monstro aí dentro

De um pesadelo-sopro onde o mar termina

Onde só existe um monstro: o abismo

Da sua boca no confronto

Com o risco

De a cicatriz sumir

 

Porque nada perdura a ponto

De jamais desmanchar

A rocha mais dura agora é leito

De peixe ou alento

No canto aguadeiro do mar.

 

2.

Afundar cidades íntimas.

Porque o íntimo é inabitável.

Refundar o íntimo. Partir

Da arquitetura selvagem até o tempo

Submerso dos quadros.

E saquear os próprios barcos.

Retornar.

O movediço como norte.

O retorno contínuo

A um continente móvel.

Fundar partilhas em fissuras

No imprevisto das caixas e das fendas.

Dizer às vozes seculares que povoam

Cada ofício:

Estou presente.

Sei talhar e retalhar enigma e sentido.

Dou às sombras meu óbolo: este

Contorno.

 

E sinto muito o tempo todo.


primeira versão: 17/06/19. Maiara Gouveia.


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