sinal de fumaça no meio do incêncio

laurence-demaison-1#rabisco #anotações 31.03.18 | Arte é moldar a substância pré-existente, comunitária: a linguagem, e a linguagem (num processo sintético) é equivalente ao mundo. Artesã, a pessoa falível, que refaz o falível num tipo não repetível de beleza: a tradução dum acúmulo, amálgama de diferentes tipos de experiência. E traduzir é devolver um corpo  absorvidos na parte invisível de um encontro (a leitura, por exemplo).
Acúmulo. E literatura como esse tipo de carta contínua a um destino imprevisto. O imprevisto.
E como a linguagem é o mundo é também o disfarce. De uma nudez explícita (intraduzível) (indecifrável) (inatingível). A nudez é o alvo. E um sinal de fumaça no meio do incêndio.
Falo de uma imersão na linguagem (invenção-inventiva) que em seu modo habitual ensina o pensamento discriminatório: isto não é aquilo. Aquilo é isso. Isso é aquilo. Como se cada nome determinasse um valor.
Minha utopia (e ofício) é desmontar a gramática de valores: este mundo discriminatório da linguagem-mundo. Quando a poesia é comparável ao sonho, ao estado meditativo, nesta região entre uma forma e outra durante as metamorfoses.
Na ficção, a personagem que não se comunica na linguagem/sistema local está no ponto de implosão/conflito, e o conflito culmina na revelação do sistema/língua. Com isso, produz a crise, uma passagem. Mostra q
ue certa discriminação (linguagem/sistema) não é hegemônica.

Retorno à imersão na linguagem para desmontar/remontar conceitos. Porque a filosofia já investiga a ideia (através de) certo aparato de ideias.
a) Cada conceito é um acúmulo de linguagem.
b) A poesia é imersão no ponto em que a linguagem ainda não é o mundo. O ponto de interstício nas metamorfoses.
Mas esse modo de escrita é um trabalho invisível e lento. O exercício de expor a ficção fundamental do continente (o oficial) e dos arquipélagos que nascem com ele (as contraposições que têm o continente como referência). E saber que isso (certamente) será demolido.
Dizer que esse ofício serve de tal e tal forma na vida prática já é aderir à voz do continente. Digo que olhar como testemunha (uma testemunha ativa) para as invenções do discurso (e o discurso já é acúmulo de linguagem) cria dose suficiente de certo tipo de liberdade pra viver menos submetido às opressões do oficial. Fecundar com isso algo diferente do mundo, diferente do avesso do mundo, um ponto fecundo de crise fecunda, o rastro do absurdo, outra vez um sinal de fumaça no meio do incêndio.

[Foto. Laurence Femaison]

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