#rebarbas salinas

baissé
foto: Baissé

…Olho o acúmulo de brancuras. Gélida paisagem feita de gente separada em blocos de expulsar. Como esquecer? Milênios podem atravessar este quarto como aves escuras. Ou alguma quietude pode engolir inteiramente o instante até fazer dele uma era silenciosa e calma. A placidez cairá como uma touca de curandeira neste lugar de teares. Ainda haverá aquelas horas de face congelada. A imprevisão do que o pacto impunha ainda gera uma emoção controversa: como podíamos não saber que a condição coletiva nos levaria ao mesmo buraco que um dia cavamos ou deixamos cavar? Falo de arabescos, porque tudo aqui é língua estranha. Dentro do arabesco, um detalhe pode ser algo de aterradora importância e beleza. Fora do arabesco, o mesmo detalhe é só um rabisco. Isso é dito há milhares de sons. Falo de uma dança circular. Resistência ao que invade as casas com sistemas de abolir o corpo. Posso fazer isso com aspecto de flor. O corpo é indomável. O corpo é inviável. O corpo dança. O corpo morre. O corpo resiste.

Num fragmento dentro das caixas proibidas, a mensagem ancestral: “força é mudares de vida”.

pega essa costura de golpes inaudíveis

e chamo o ricardo correa da silva | desconhecido como fofão da augusta | fala a partir de uma identidade desalojada | como se a identidade | fosse um membro amputado | diz: “ele precisa parar | de caminhar na dor | ficar ‘ai, ele é dodói | e aceitar calor humano” | cálida é a sua travessia | em cada vértebra de rua | em cada quarto de passagem | onde se deita | quem mais não está | alocado no corpo || e chamo a stela do patrocínio | desconhecida como outro reino | com a existência despejada | pela ciência instauradora da loucura | fala de dentro da derrelicção | e é quase lírica | diz: “meu nome verdadeiro é caixão enterro | cemitério defunto cadáver | esqueleto humano asilo de velhos” | “tinha terra preta no chão | um homem foi lá e disse | deita aí no chão pra mim te foder | eu disse não | vou-me embora daqui | aí eu saí de lá | vim andando” ||
por esse espaço | na medida de um não | de onde se pode sair em pé da violência ||
chamo a estamira | desconhecida desde antes de nascer | fala de dentro de uma consciência capaz | de sobrevoar o depósito dos restos | diz: “agora a pessoa não pode mais ter perturbações mentais? | não pode?” | “eu transbordei de raiva | eu transbordei de ficar invisível com tanta hipocrisia, com tanta mentira, com tanta perversidade, com tanto trocadilo, eu, estamira” | “eu sou a beira do mundo”
pega essa costura de golpes inaudíveis | & amarra | na seta apontada pro alto || o golpe é na carne | é na cara | é à faca

3 dimensões & 5 migalhas

Gilgamesh e a serpente da eterna juventude

primeira dimensão da escrita (a máscara-espelho). traçar no barro a primeira camada: o desenho reinaugura um corpo | por isso o primeiro corpo é de barro | é de barro este corpo alusivo que pode | perdurar

segunda dimensão da escrita (certamente morrerás). na mesma tábua de barro onde o corpo | pela primeira vez entoa e grava | o espanto de ser | (volátil) | pela primeira vez despeja | imagem | codificada | e guarda no gesto | a possível consciência de ser | (todo signo) | de ser | em espanto e enredo | uma cifra (incendiada-incendiária) | e tão líquida | luminosa | quanto precária | mas ainda inteiramente viva | e guardada | na coleção de riscos

terceira dimensão da escrita (depois do dilúvio). a primeira escrita | feita de sopro e barro | é matéria & hálito | aí se enterrou o tesouro mágico | uma semente da árvore da vida | onde se enrosca ainda | a mesma serpente | que joan brossa, p.e, divide | em duas páginas | e são as três dimensões | como as cabeças de cristo | o resto é barulho de água

*

uma trilha

migalha 1. como se a morte viesse e nos visse | sem nenhuma resposta importante | ainda que o nome a ser apagado | em breve brilhasse | em cidades | também perecíveis

migalha 2. e nunca se perde nada | quando se entende a despedida

migalha 3. o que a gente conta é moldura do que não conta

migalha 4. a presunção de saber é uma cegueira armada

migalha 5. nome contra pele | até acordar | (com) a fronteira que é | até acender | outro mapa