para Stela do Patrocínio

rascunho (uns estilhaços) | 31.08.17

1.       e dessa água oculta | a melancolia escapa | como um filhote com medo da chuva | e entorna | água turva | um tipo de noite | um tipo de abertura | como se toda truculência | pudesse ser movida | e removida | de dentro desse luto | ou fosse | comovida | na espessura | fina, intensa | e dessa mesma água oculta | a ternura | que se deixa escapar por tantas trilhas | como aquelas | com a boca cheia de canções | imprevistas | inaudíveis | a ocupar | cada nome recolhido | sob estátuas | em cada século salobro | ausência | distância | torvelinho | onde o frágil vibra | e a pele sobra | sob a lágrima | a confusão marítima | e nesse mesmo oculto |a beleza escapa | como este corpo agora | dentro da força úmida | a fenda fina | onde | o incabível | está | a unidade das pétalas | a canção alienígena | e a inundação oculta | que pinga | pinga | pinga | pinga

2.       ou podia transformar esta emoção | em flor pluvial (o que imagino) | ou ribeirinha a flutuar| ou podia | contornar esta parede | de sonhos bifurcados | ou contar | como se conta platitudes | desta emoção-enigma | quando o banal é violento | e as conversas mais bobas | são hostis (cruéis) | e o sublime ainda queima | na parte onde sou | o mundo inteiro | repartido | repartido | e se até um estalo (no meio de uma | memória má) (ou de uma | orquestra) | pode devorar | meus tímpanos | imagine o que empala | em mim | cada disputa | e como empala | e o sublime (na parte avessa?) | ou a flor pluvial | ternura | melancolia | faz do filhote | com medo da chuva | um signo | sonoro e líquido | que entorna a si mesmo | no que fascina

3.  : a pele | a lágrima |  cálida | de onde não escapo | fico | e digo: delicadeza | como se o dito não | emoldurasse | o não dito ||  ninguém pode habitar | isto | nem poderia | atravessar paredes | a fenda fina | onde é | incabível | a inundação | o cinema | outro livro | fiapos de imagens | pessoas | memórias | sensações | quem mais pode caber no torvelinho? | e o que pode entornar | a confusão de águas | nesta linha | pauta | onde a pele sobra | e esta força pluvial | respinga?

instantâneo

rascunho | 29.08.17

meu ofício é traduzir o invisível | e como ouço | enquanto ouço | o alheio musical: minha própria língua | refeita em clareiras de sentido || crio isto: o que só pode decifrar | o próprio enigma | e nesse gesto rearranja cada cifra || desenho este lugar fora dos mapas | e em cada fragmento de sentido | finco a inaugural cartografia