CONTEMPORÂNEAS | ANA LLURBA

Leia AQUI 4 poemas de Ana LLurba.

Este é o momento exato em que o tempo começa a correr é o primeiro livro de poemas de Ana Llurba. Escolhi começar com ela por esse anúncio de inscrição num intervalo exato, o do instante de origem do fluxo do tempo, gatilho de um presente contínuo.

Em uma entrevista[1], Ana cita de memória uma fala da escritora Sloane Crosley. Diz assim: «existe um relógio biológico, outro para a vida profissional, outro para as relações sentimentais: ser mulher é como estar todo o tempo diante de um balcão de aeroporto em que todos os quadrantes de todos os relógios de todos os fusos horários apontam pra você». Esse fragmento revela bastante do que li nos textos de LLurba, nascida em 1980, em Córdoba, na Argentina, e radicada em Barcelona, na Espanha.

A imagem do aeroporto como eixo de uma experiência de trânsito, deslocamento, onde cada um dos relógios é também um espelho, um ente inquisidor, um mapa que une pontos diversos da experiência de um corpo (físico e simbólico), ser mulher e sentir na pele o tempo encarnar-se, ser alguém num intervalo específico da história, o agora, exatamente agora, que nomeia um poema a respeito do presente habitável. E ser também alguém que se inscreve numa geração, ser de um grupo com referências culturais bastante específicas, por exemplo a cultura pop, em destaque num poema como “Volver ao futuro”, que alude ao famosíssimo filme de 1985.

A imagem do aeroporto e a ideia de corpo como norte, orientador num espaço de ocupação provisória, isso me lembrou uma leitura que fiz de outro poeta, uruguaio radicado no Brasil, nascido em 1948, Alfredo Fressia. São diferentes tipos de escrita poética, com diferentes referenciais, mas o corpo que atravessa poemas e madrugadas frias, atravessado por épocas e paisagens, isso leio nos dois. Em 2010, escrevi um brevíssimo comentário [2] ao livro Canto Desalojado, do Fressia, e lá estão anotadas essas marcas, que vejo também na poesia de Ana LLurba.

Esse momento exato do tempo que começa a correr também é o das leituras atualizadas, rearranjadas na singularidade do poema. O tempo desse gesto de costurar, com estilo e memória, sensações, resquícios de livros, cenas e outros ruídos experimentados, amplificados nesse lugar de intervalo, onde quem lê quem escreve fundem-se no traço circular do ritmo (ou tempo mítico) e esboçam o desenho de outro relógio entre os que apontam um rosto, e esse rosto é agora coletivo.

Mas também pode ser o mais íntimo.

[1] ABC Cultura http://www.abc.es/cultura/cultural/abci-llurba-dificil-no-escribir-sino-corregir-reescribir-autocritica-201511301740_noticia.html

[2] O corpo sem lugar https://ocorpoestranho.wordpress.com/2010/11/08/o-corpo-sem-lugar-alfredo%C2%A0fressia/

Leia AQUI 4 poemas de Ana LLurba.

Contemporâneas

O objetivo desta série de vídeos é apresentar representantes da criação – artística, literária, intelectual – contemporânea, principalmente autoras e autores de poesia. 

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