4 poemas de Ana Llurba

O espírito da minha época

durante muitos anos tentei substituir meu sobrenome

pelo nome de um fantasma bonachão

um nome que encontrei numa nota de rodapé

de um livro de minha mãe

e como o espírito de Natal

imaginava-me a sobrevoar os novos penteados raros

de Byron, Hegel e Mary Shelley

como se enfim tivesse entendido um antigo segredo

descobri o Zeitgeist emaranhado entre as cordas de um baixo

e numa época de obediência, sombra e resignação

ele se converteu em meu guia espiritual:

tocava seu instrumento com dois dedos e só se manifestava

diante dos desconhecidos que lhe ofereciam

um souvenir adornado com tantas estrelas brilhantes

diminutas lamparinas fugazes como as que emolduram

o rosto da virgem Maria

com a palavra geração

agora não é mais que um mendigo cego em uma esquina

uma testemunha do que acontece

quando não acontece nada

e nada

não é a morte

escura e gloriosa

separação entre o corpo e a alma,

mas o desencanto

essa medalha romântica que agora habita

em seus olhos

 

Coisas que não me importaria esquecer

“A vida é séria demais para que eu siga escrevendo.” Lydia Davis

paisagens com neve,

vidoeiros

e ursos que tomam vodka

em xicrinhas de chá

disso eram todos os romancezitos russos que não escrevi

porque sei que já não sou jovem

e por isso aprendi

que de todas as minhas atitudes de vaidade e autocomplacência

como acomodar-me nesta cadeira de bambu

ou converter-me em uma especialista na genealogia das casas reais

fingir que não conheço o final

dessas naturezas-mortas com livros

é o mesmo que esconder

as delgadas placas córneas

situadas nas extremidades dos animais vertebrados

para arranhar, riscar, aferrar-me com medo

à ilusão de que todo movimento

continua a ser caçada.

 

Piscinas vazias

o esmalte descascado das minhas unhas

esboça o skyline de uma cidade em seu crepúsculo

ainda que outros só vejam uma mancha de óleo

é um teste de Rorscharch

invadindo a praia das minhas cutículas

onde adivinho a mensagem evasiva do oráculo:

vou comprar uma camiseta com Jesus Cristo

montado num diplodoco sem dentes

o abismo de sua boca vazia

como essa piscina abandonada

é uma tumba aberta

nos fundos da casa de minha mãe

bocejando a data exata

do fim do mundo.

 

Agora

“Quando você vive aqui, se esquece de que só

porque parou de afundar não significa

que não está mais sob a água.”

Amy Hempel

éramos um punhado de gente dispersa

depois de uma batalha perdida

gesticulávamos em nossa incompreensão

ante as desventuras deste mundo

tentávamos ignorar os assentos vazios dos

que já haviam partido

e o ruído dos animais que fugiam de

nós

e até nos inventávamos desculpas de uma maneira tão

funcional

que no Terceiro Reich teriam considerado artística

porque nosso envolvimento emocional

na desgraça era uma mentira

havia chegado o dia

aqui sabíamos que agora

era um lugar onde também se poderia viver.

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