saio à rua vestida em meu próprio sangue

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fragmentos

Deito no chão e fico aqui até cansar de ver a sombra das grades no tule e na pele. Forma recortes na brancura, que se estende interminável até o vestido. Ali, nas bordas da caixa, parece um pano eviscerado. Aqui é o quarto das costuras. A janela tem grades pra impedir que as crianças menores se acidentem. Nenhuma delas veio hoje. Nada das correrias e os gritinhos em falsete. Finjo por elas que sou a cerzideira. Sinto prazer em fazer de conta que sou eu. Quem tece o que visto.

O continente é interminável.  Tem tanta neve que queima até a voz. Imagine isto: uma voz incendiada pelo frio.

Pó, rachaduras, quinquilharias. Houve tudo isso quando a morte existia. Sou parte do que tem falhas. Do que pode morrer. Cubro esse escândalo com tule branco.

Árida é tanta claridade.

*

Leite derramado. O vestido assombra as bordas da caixa. Inscrições daquela história sob os panos. Do dia em que entrou na cidade sem saber mais a própria língua e sem saber a língua do lugar.

E repete: sem saber mais a própria língua e sem saber a língua do lugar.

Com as duas crianças escoradas nos quadris. Sai de casa com a cabeça cheia de zumbidos. Ais das humilhadas. Estalos de madeira. Barulho das tralhas enroladas em gaze. Há remédios vencidos. Rasuras. Algo que de repente pega fogo. Preciso conter isso antes que engula os panos. Rio.

Nada de panos quentes por aqui.

*

Sei que fui contaminada. Vi muito bem as velhinhas humilhadas, como ficam às vésperas do exílio, como olham fixo pra trás. Umas viram estátuas de sal. Só pra conservar o corpo fustigado pelo medo. Quase despidas. Charque no frio. Sei muito bem que fui contaminada. Porque a fragilidade abriu um rombo em cada um dos meus panos. Cada pedaço de tecido tem um rombo.

Quase despida, procuro um manto nesses baús pesados. Procuro também um mapa. Como quem abre com os dedos – e de modo delicado – toda a brancura indômita.

*

B. desarrolha uma garrafa de bebida fumegante. Engole um bocado de uma vez só. Escorre um tantinho no canto da boca. A boca acesa de B. contrasta com todo o resto. Acende uma alegria imprópria, rubra, entre os baús fechados. Não pergunto se queima. Penso demais, como se pusesse os braços sobre a boca e o nariz. Tapo cada buraco e furinho com tule e ideia. Ponho mais tapume. Fico sufocada e me debato. B. toma outro gole da bebida quente. O espaço inteiro fica álacre. B. anda pra trás. Estala os dedos. Acende o gerador de espetáculos. Faz numa tábua a projeção dos meus contornos. Produz com eles a boneca-holograma.

Sinto a consciência ir comigo – a boneca – até um dia de banimento. Ouço o barulho de louça a se espatifar. Capotam mil velhinhas humilhadas. Urina e lágrimas. Soa uma canção estridente. A plateia agita a espiral do gerador, onde se lê comentários. Apoteose. Choram de rir. Choram de raiva. Pipocas.

Atravesso a nevasca com o corpo-holograma da boneca, pulo as poças de urina. Estou zonza, porém consigo achar a velha que caiu primeiro. Bonita. Bonita pra uma velha, alguém arremessa, lança na espiral outra disputa: isso, aquilo, padrões, pedradas.

Bonita. Rosto elegante sob as antenas de alienígena, sob as alfaias carnavalescas que jogaram em suas costas. Sinto a consciência se deslocar um milímetro da boneca-holograma, e só eu e a velha miramos, no plano de fundo, uma libélula. Baile aéreo. Fio de alegria flutuante. O silêncio admirável desta hora crava outra vez em mim a promessa de escapar.

Suave é a noite.

*

O mar parece gelado quando boia a flor de sal feita de luz e água. Fica esta camada: salina. Planura de cristal feita de mar evaporado. Aqui não há mar nem sal. Só neve. E nevascas de fazer ferida. Porém é proibido. Ferir-se. Sobra só o continente. Sobra cada tecido esticado nas telas de manequim. Isso que fornece vestidura a cada boneco-holograma, vicário de um corpo oculto à cena.

Cerzideiras são párias há muitos séculos. Pelo desuso. É quase um nome mágico: cerzideira. Mulher que faz a própria roupa. Munida de fios. E dedos hábeis. Pode até fazer bonecas de lã. Bonecas mudas. Que indicam aos pequenos: usem a própria voz. É a tua voz que dá vida às bonecas. Por isso as cerzideiras que ainda existem são proibidas. Ninguém fala das cerzideiras. E falar delas é como falar de unicórnios. Contam que as cerzideiras acham os dedos das meninas, picam os dedos das meninas, por isso pinga tanto sangue de menina contra a neve. Quartos de costura têm perigos impensáveis.

Pagar a quentura nos pés. Só este continente usa o prazer como moeda. Às vezes desconfio. Que não exista lugar além daqui. Não exista fresta pra escapar desta brancura feita de exílio intenso. A conjetura é pegajosa. Imagino um continente do tamanho de um quarto de costura. Apita o sistema de prazer instantâneo. Importante é o seu prazer. Mostre mais prazer e tenha acesso a mais prazer. O prazer só pode ser contado quando se mostra. O prazer faz girar as rodas do prazer. Faça as contas. Quanto prazer uma velha troca? Não sei. Subtraímos as dívidas. Antes do banimento, o Consenso sai à caça dos desvalidos. Não olhe pra eles. Não vire estátua. Não vire estuário de tanta água extinta. Não evapore. Desaposse os desvalidos. Até do próprio corpo. Perdem o nome. Ganham equações. E deixam um espólio. Cada item é empacotado e arquivado nos quartos de cerzir. Quase ninguém entra nesses espaços. Inativos. Desativados. Quase sempre à mercê de incêndios. Porque têm todo tipo de coisa inflamável.

*

Foi isto: os olhos de B. se abriram, e B. viu a nudez. Com olhos submersos no torso de metal de um manequim, flagrou o brilho exótico da própria pele e as dimensões da própria face, abismando-se na imagem como se descobrisse um alienígena no quintal.

Mas B. só foi parar ali por notar um rasgão no tecido. Por isso entrou no sítio de distrações e acendeu a tela, tudo conforme o regulamento. Suspeitam que B. contaminou-se justamente por causa do rasgo.

Por isso os olhos de B. se abriram, e B. viu a nudez refletida na superfície metálica do manequim. Do estupor ao ímpeto, arrancou de si a face e a pele, como se fizesse outro rasgo no tecido, com a pressa de quem vai desovar um cadáver pra se livrar da autópsia incriminadora.

O cão dos controladores farejou a carcaça de B.. Circulou a notícia da fuga. Da criatura sem rosto, a criatura despelada. A voz frígida de um dos controladores anunciou que não devia ter fugido. Frisou no frisson dos sistemas: não devia.

Deliberado: à caça de B. Arrastar B. pelos fios de tecido que deixou como rastro. Porque B. ousou abrir a porta vidrada do sítio de distrações e despejar ali uma angústia cristalina.

Mas B. não fugiu. Fez deslizar a carcaça, neve após neve, até achar um rosto provisório e pele pra atravessar a nevasca. Resistiu, neve após neve, até encontrar este quarto, porque tem muito a explicar.

Mesmo de dentro do espetáculo, a consciência engolida pela boneca-holograma, tudo a cair junto com as velhas humilhadas, o barulho de louça a se espatifar. Ainda posso. Ver a fiandeira. É bonita. A consciência se descola um milímetro da boneca-holograma, flutuo porque alguém diz a cerzideira, nome mágico, consigo ver o baile aéreo, flor a boiar num instante oceânico, alegria-barco pra escapar.

Só depois me dei conta de uma pergunta insistente. Que pele e que rosto B. achou pra atravessar a neve até chegar aqui?

*

Janela. Tem gonzos enferrujados. A moldura é resistente e muito escura. De madeira. Só falta a cerzideira pra expandir o ar fantástico deste quarto de costura. Imagine atassalhar esse quadro-promessa até achar uma abertura. Ou conseguir afastar as duas partes de madeira até dar à luz um filhote de unicórnio. Imagino a cerzideira ali. Perto da janela de madeira escura. Perto do acúmulo de invernos. Esbarra o dedo na agulha. Pica o dedo indicador. O sangramento encharca a neve com uma quentura imprevista. Densa vermelhidão contra o branco.

Olho pro meu espelho sujo. Suporto e desfruto este corpo antigo. Não pus o código antimenstrual. Por isso tenho a cicatriz: lua e touro. Desenho gravado na pele das que decidiram habitar o próprio corpo. Habito este corpo. E, sob a tauromaquia enluarada, está inscrito: lúbrico, enlutado, inocente. Nada do aparato permitido deixa dizer o que é um corpo. A potência de um corpo. Este corpo. Não posso dizer. Posso mantê-lo como enigma, como esse filhote de unicórnio atrás da janela, pronto pra nascer e cambalear pra ficar de pé.

Talvez esteja aqui a chave da janela de gonzos enferrujados. Olho o espelho sujo. Dentro dele um continente assim tão branco se despedaça em outras histórias, as matrioscas mandam sons exóticos pelos furos de cada objeto arcaico por aqui, agora, agora mesmo, pela janela de gonzos enferrujados e moldura de madeira escura.

B. corre ali. B. corre da imagem que fez arrancar de si a pele e a face. Controladores à caça de B. Até um caçador celebrar a captura de uma carcaça. E exibir o arcabouço de um javali como se fosse B. Abocanhariam os pulmões e o fígado da criatura. Deixariam aos títeres do gerador de espetáculos as tripas e a cabeça de javardo. Imagine isto: substituir as partes do corpo de B. pelas partes de um porco selvagem. Carne de javali retalhada por hologramas. Nenhum deles sabe o que é um porco doméstico, qualquer porco, o que pensariam de um porco ancestral?

Gonzo, ferrugem, janela. Sangue contra a neve. Cicatriz. Cada som antigo se desprende dessa tralha exótica.

E é tudo inflamável.

CONTINUAÇÃO EM MALLARMARGENS | revista de poesia e arte contemporânea

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